Só no campo podemos resistir a agenda que transforma por completo os humanos em produtos para as corporações

Sinto muito, mas se vocês ainda pensam que podem viver nas cidades durante a próxima década, ainda mais sem ser subordinado pelas Cidades Inteligentes, Internet das Coisas, Internet dos Humanos, a Quarta Revolução Industrial e a tecnocracia, você ainda não entendeu verdadeiramente as agendas que enfrentamos.

Nota: Tradução livre e adaptação por Eurico Vianna, PhD. Artigo original por Derrick Broze no canal do Telegram Notícias Diárias por Derrick Broze. Alterações e/ou contextualizações entre [].

O plano para a década de 2020-2030 é conhecido pela ONU, o Fórum Econômico Mundial, suas organizações parceiras [maioria corporações] e governos [já aparelhados] como “A Década da Transformação”. Eles usaram o COVID-19 como uma desculpa para acelerar sua pressão na direção de um controle tecnocrático totalitário, de cima para baixo e isso é só o começo. 

As cidades vão (e em alguns casos já são) ser lugares sem nenhuma privacidade, sem individualidade e onde os escores de crédito social determinarão seu nível de acesso aos serviços sociais, “privilégios” como viagens e as poucas alternativas fora do enquadramento das Cidades Inteligentes. 

Protestos, marchas, manifestações, ações judiciais e comboios pela liberdade tem o potencial de inspirar, oferecer esperança e estabelecer relacionamentos comunais mais fortes, mas não vão parar essa agenda massiva. 

Segundo, quando falo sobre Saia e Construa, escolha não participar, etc. isso não sobre “ir viver no mato” ou algo parecido. Claro, alguns de nós estão procurando terra para estabelecer comunidades intencionais como modelo para outros, mas muitos estão comprando terra para que possam ter liberdade para produzir o próprio alimento, armazenar recursos, ter privacidade, adquirir outras habilidades, etc.

Entretanto, embora você fique na zona peri-urbana, perto das cidades ou no campo, o objetivo do Saia e Construa é optar por sair dos sistemas que serão usados para te escravizar. Estes são os sistemas que nós já vemos sendo usados contra nós durante a era COVID1984.

Eles incluem:

  • contas bancárias
  • seguridade social e estado do bem estar social
  • empregos ‘tradicionais’ (ter um patrão)
  • sistema público escolar 
  • a indústria do entretenimento (quadras esportivas, etc.)

Agora, muitos de vocês viram os exemplos nos últimos 2 anos, mesmo assim vocês ainda parecem determinados a se apegar ao seu estilo de vida pregresso [à pandemia]. Talvez o COVID1984 não tenha afetado vocês verdadeiramente. Mas vocês estão apenas há dois anos rumo a essa década de transformação. Nós não vimos nada ainda.

Não estou aqui para dizer para vocês qual o tipo de estilo de vida vocês devem viver, mas estou aqui para avisá-los que se continuarem a fazer de conta que essas [transformações que centralizam poder, renda e território] não estão acontecendo e presumindo que podem viver suas velhas vidas normais sem ser afetados, vocês terão tempos difíceis enquanto essa agenda [do FEM] avança.

A resposta, quer você viva na cidade, na zona peri-urbana ou no campo, é cortar quantos laços sejam possíveis com esse sistema podre. Quanto menos dependente você estiver deste sistema, melhor você e sua família estarão.

Se você escolher ficar nas cidades e no “mundo convencional”, se prepare para o aperto nos próximos anos.

As conexões entre a crise alimentar, as corporações do agro, da transgenia e a produção de vacinas com o Dr. Brad Evans

A agricultura industrial não é sobre a produção de alimentos, ela é sobre usar o território e a população para criar uma plataforma de escoamento para os produtos petroquímicss e das mineradoras. Os grandes fundos de investimento que possuem as corporações do agronegócio e da transgenia, são os mesmos que possuem as gigantes tecnológicas e as da indústria farmacêutica. Em um momento histórico no qual essas corporações vem roubando dados da agricultura familiar e propondo ainda mais controle por meio da ‘agricultura de precisão’ (completa desumanização, digitalização e automação da agricultura), devemos nos perguntar quem mais se beneficia dessa fusão das gigantes tecnológicas com as corporações do agronegócio, transgenia e farmacêuticas?

O que artigo que segue é uma tradução livre de um programa do Russel Brand e de um artigo escrito pelo Professor Brad Evans. Filósofo político, crítico teórico e autor especializado no problema da violência, o Dr. Brad Evans já escreveu 18 livros e hoje é titular da disciplina Violência Política e Estética na Universidade de Bath, no Reino Unido. O vídeo original pode ser acessado ao final do texto.

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Com o tipo de artigo que tenho escrito, não sei por quanto tempo as redes sociais manterão meus perfis. Se você quer ficar em contato direto, pode se inscrever na mala direta aqui no site e no canal do podcast impacto positivo no Telegram.

Como de costume aviso que não sou sanitarista, médico virologista ou biólogo e, portanto, as informações e opiniões que compartilho aqui não devem ser vistas como recomendações. Acredito que, ao compartilhar minhas decisões pessoais, essas reflexões valham como construção de um pensamento crítico, ecológico e sistêmico para outras pessoas.

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“Na medida em que bilionários e grandes empresas de tecnologia assumem cada vez mais a agricultura e os alimentos que comemos, perguntamos: estamos sendo transformados em uma colônia de alimentos geneticamente modificados?” (Russel Brand, na reportagem original)

É uma pergunta retórica, obviamente. Como mencionei acima, a agricultura industrial não é sobre a produção de alimentos nutritivos e saudáveis. A arquitetura e a engenharia civil não são sobre a construção de moradias e edificações aconchegantes, funcionais, autônomas e energeticamente eficientes. A indústria farmacêutica não é sobre saúde preventiva e bem estar humanos. E, por fim, o sistema econômico não é sobre criar acesso aos recursos, facilitar transações e distribuir renda. Essas áreas transformaram os territórios e as pessoas em plataformas de escoamento para seus produtos petroquímicos, transgênicos, minerados e farmacêuticos e o sistema econômico e o modelo democrático vigente no ocidente, em mecanismos de concentração de renda e poder.

A gestão dos nossos territórios frente crise alimentar sem precedentes mencionada pelo Dr Brad Evans tem semelhanças fortíssimas com a gestão da pandemia frente ao colapso ecológico que vivemos: como cânceres as corporações (e os governos aparelhados) seguem oferecendo soluções que fagocitam as pessoas e o território para gerar lucro sem nunca resolver, de fato, as causas do problema. Nesse contexto, a raiz do problema é a gestão reducionista do território e dos recursos que visa só lucro e é incapaz de resolver o colapso ecológico, social e econômico que ela mesma causa (as chamadas externalidades econômicas).

O cenário que o Dr Brad Evans tão claramente descreve se relaciona diretamente com a Doutrina do Choque, de Naomi Klein. A Doutrina do Choque, como explica Naomi Klein, é uma tática brutal e recorrente adotada pelas corporações e seu lobby sobre os governos que se aproveita de um acontecimento chocante – uma guerra, um golpe de estado, um ataque terrorista, uma quebra do mercado financeiro ou um desastre natural, para explorar a desorientação da população, suspender a democracia, promover políticas radicais que enriquecem o 1% às custas dos pobres e da classe média. Naomi Klein se debruçou por quatro décadas, desde o golpe militar de Pinochet, apoiado pelos Estados Unidos, no Chile dos anos 1970, até o Furacão Katrina em 2005 e a tática é sempre a mesma. Nesses últimos dois anos de pandemia não foi diferente: tivemos a maior transferência de recursos da história para as mãos de um pequeno grupo de bilionários.

Deixo aqui uma aula sobre a Doutrina do Choque antes de seguir para o texto do Dr. Brad Evans, que embora ateste sobre as eficácia das injeções com terapia gênica, alerta sobre os perigos desse tipo de argumento quando usado pela indústria alimentícia.

“O mundo está nas garras de uma perigosa crise alimentar. Trata-se de mais do que simplesmente cadeias alimentares. Levanta questões fundamentais sobre a dependência alimentar e os próprios tipos de alimentos que estarão disponíveis para nós comermos nas próximas décadas. Em um artigo recente na revista médica Lancet, a pesquisa observou como estamos entrando em um período preocupante no que diz respeito ao acesso a alimentos. Citando o relatório global de 2021 sobre crise alimentar, eles apontam como mais de 160 milhões de pessoas em 43 países ao redor do mundo são afetadas pela escassez de alimentos.”

“Mas este não é apenas um problema restrito aos países mais pobres do mundo. Nos Estados Unidos, de acordo com dados do Departamento de Agricultura, cerca de 13,8 milhões de pessoas, cerca de 10% da população, enfrentaram algum tipo de insegurança alimentar no ano passado. A situação é a mesma no Reino Unido. Como Bee Wilson observou recentemente no Guardian: ‘o Covid trouxe à tona algumas verdades duras sobre o sistema alimentar britânico e o trabalho ruim que ele faz de alimentar a população como um todo. Quando o primeiro bloqueio ocorreu em março de 2020, muitas famílias britânicas em melhor situação puderam continuar comendo como antes, enquanto milhões mergulharam na pobreza alimentar ‘”.

“Bem, parece que as corporações multinacionais de alimentos têm uma solução pronta, o que também revela algumas conexões interessantes com a produção de vacinas.”

“Embora os debates ainda se agravem sobre até que ponto a vacina contra a covid-19 equivale a modificação genética, o que talvez seja menos conhecido é como ela emprestou algumas de suas ideias das estratégias de marketing para alimentos geneticamente modificados ou transgênicos. Além disso, o que marcou uma diferença notável foi como a produção de vacinas foi capaz de contornar vários regulamentos que estavam em vigor, que anteriormente limitavam a disseminação generalizada de alimentos geneticamente modificados. Isso poderia agora ser usado como um catalisador para abrir as comportas, já que os produtores de alimentos exigem o mesmo afrouxamento das regras? O que parece claro é como o sucesso da vacina agora é apresentado por alguns como uma nova maneira de superar as preocupações do público com alimentos transgênicos”.

“Um artigo no Irish Times observou há alguns meses, ‘grupos ambientalistas que se opõem aos organismos geneticamente modificados (OGM) têm sido muito influentes por um tempo considerável e capazes de levantar grandes protestos públicos. Mas o movimento anti-OGM está agora em declínio à medida que a UE e várias organizações ambientais influentes começam a acolher cautelosamente alguns organismos geneticamente modificados. O prego final no caixão anti-OGM provavelmente será o sucesso espetacular da tecnologia genética que acaba de desenvolver várias vacinas altamente eficazes contra a covid 19 no prazo milagrosamente curto de um ano’. O mesmo artigo também aponta como ‘as técnicas de biotecnologia podem ajudar a UE a cumprir as metas de sustentabilidade ambiental’. Para aqueles de nós que estão preocupados com os alimentos que comemos e acreditam nos benefícios das culturas orgânicas, este é um desenvolvimento preocupante.”

“Ao considerar essa questão da dependência alimentar e as tentativas de imposição de alimentos geneticamente modificados, vale olhar para os países já envolvidos na luta. Tomemos aqui o exemplo do México, que é particularmente instrutivo. Os agricultores do país vêm se organizando ativamente contra os alimentos transgênicos há muitos anos e foram essenciais para colocar o assunto na vanguarda da agenda ativista internacional pelo menos desde os protestos em Seattle em 2000. A chave aqui é o milho.”

“A produção de milho no México não é apenas altamente politizada; sua produção vai ao coração das culturas indígenas. Podemos lembrar aqui como uma característica chave do levante zapatista no México em 1994 foi a autonomia e dignidade das culturas alimentares nativas, o que por sua vez levou à criação do que foi chamado de movimento antiglobalização. Mas também tem sido o campo de batalha mais ferozmente combatido no esforço para impor variantes geneticamente modificadas, que literalmente deslocam as culturas nativas com uma variante de milho que coloniza a terra e desloca suas variantes multicoloridas com uma variedade amarela produzida em massa”.

“O México possui atualmente 64 tipos de milho, que são usados ​​em mais de 600 pratos diferentes. No entanto, como Gabriela Galdino observou no Politico, ‘o México está rapidamente se transformando no principal campo de batalha em uma guerra cultural e comercial sobre como o mundo produz seus alimentos’, principalmente em resistência às demandas dos EUA. O que está em jogo aqui é a forma como a produção de alimentos está mirando diretamente nos direitos políticos das pessoas por autonomia. O GM, em suma, agora é como a vacina, propondo ser uma forma de nos salvar de outra catástrofe, pois nos permite ‘alimentar o mundo’.”

“Isso convenientemente ocorre em um momento em que as pessoas vêm fazendo mudanças notáveis ​​nos padrões de consumo de alimentos, exigindo uma produção mais justa e insistindo mais em sua natureza orgânica”.

“Uma das vozes mais famosas sobre a insegurança alimentar continua sendo o ganhado do prêmio Nobel, Amartya Sen. Importante. Para Sen, se as pessoas sofrem de insegurança alimentar dificilmente é devido à escassez de alimentos, mas o que ele chamou de falta de ‘direito’. Em suma, há alimentos saudáveis ​​suficientes disponíveis para alimentar o planeta; o que nos falta são as distribuições políticas e econômicas corretas.”

“Será que nossa solução para esta crise global de alimentos não é engenharia biotecnológica, mas um tipo de engenharia muito mais humana. Um que envolve uma simples redistribuição de renda para que as pessoas possam viver uma vida saudável. Se somos o que comemos, certamente devemos lutar contra os alimentos que nos colonizam?”

Quem deve diminuir o consumo e de que tipo de carne?

O número de pessoas que argumenta em prol de uma dieta à base de plantas ou mesmo do veganismo como direção única para o movimento ambiental tem crescido muito nos últimos anos. O argumento geral é que “precisamos comer menos carne para evitar a degradação ambiental”. Mas quem precisa diminuir o consumo de carne? De que tipo de carne estamos falando? Quem tem o direito de decidir ou influenciar a dieta de uma pluralidade enorme de pessoas vivendo em ecossistemas tão diversos?

A tendência ao veganismo ou a dieta à base de plantas nasceu nos grandes centros urbanos entre grupos privilegiados da população e tem encontrado campo fértil entre as pessoas que buscam um viver ‘sustentável’ e apoiam o desenvolvimento de políticas públicas para ‘reformar’ os sistemas de produção alimentar. Entretanto, essa abordagem é tão simplista e generalista que caracteriza uma miopia analítica, um desserviço para a ecologia, para a nutrição e para o ativismo ambiental. 

O problema é que não é possível reformar o sistema industrial de produção alimentar, assim como não é possível reformar o capitalismo. O sistema alimentar industrial faz exatamente o que foi projetado para fazer; ele concentra renda, poder e território nas mãos das corporações – empresas de capital aberto criadas pelo capitalismo para maximizar o lucro de um dia para o outro a qualquer preço. Não é o que se come que degrada as dimensões social e ecológica, o que caracteriza o problema é o como, onde, porquê e por quem é produzido, também o como, para quem, para onde e por quem é escoado. 

O que precisamos é de um novo modelo de gestão econômica que entenda e se comporte de acordo com a realidade física e biológica do planeta – a de que atividade econômica, de fato, está contida na biocapacidade dos lugares onde se realiza. E em termos de sistemas alimentares, o que precisamos é desenvolver sistemas descentralizados, distribuídos, capazes de lidar com as complexidades climáticas, geográficas, hídricas, biológicas, socioeconômicas e culturais dos lugares onde vivemos e produzimos nosso alimento.

E nós temos tanto um modelo de gestão como um sistema alimentar capazes de lidar com essas complexidades. 

A Economia Ecológica (EE) é um campo de estudo transdisciplinar que reconhece a interdependência da atividade econômica e dos ecossistemas naturais ao longo do espaço e do tempo. A EE se distingue da economia ambiental que se baseia na teoria da economia clássica, incorpora a atividade econômica na natureza e reconhece que os limites do crescimento material estão diretamente relacionados com a biocapacidade dos ecossistemas onde esta atividade se viabiliza.

O conceito de Soberania Alimentar foi definido pela Via Campesina, uma organização de pequenas e médias agricultoras familiares, indígenas e trabalhadoras rurais que visa a transição de uma agricultura industrial baseada em insumos químicos que degrada as dimensões social, ambiental e econômica para uma baseada nos princípios ecológicos. A soberania alimentar é um conceito inclusivo, sensível e plural que constrói o direito de todos os povos a alimentos nutritivos, limpos e culturalmente apropriados, assim como do acesso aos meios de produção para manter sua dieta. A soberania alimentar também implica o direito a decidir como comercializar se for o caso e se essa comercialização deve atender primeiramente a biorregião, o país ou uma agenda de exportação.

Os grandes centros urbanos são ecossistemas artificiais, mantidos pelos combustíveis fósseis e, portanto, são altamente poluentes, como José Lutzenberger já alertava na década de 80. A busca por uma vida sustentável nesses centros, como hoje alerta Ailton Krenak, é uma busca egoísta. Visa mais negociar e aplacar culpas ambientais que resolver problemas sistêmicos. Não faz o menor sentido criarmos uma direção, uma tendência vegana ou à base de plantas para todos, nivelando assim o viver e as necessidades das famílias campesinas, da agricultura familiar agroecológica, dos povos tradicionais, de ribeirinhos e indígenas com o viver altamente poluente dos urbanóides.

Essa tendência não faz sentido nutricional porque toda a produção industrial desperdiça em torno de 30% do que produz e entrega os outros 70% envenenados para a população que pode pagar. Durante a pandemia tivemos quase 20 milhões de pessoas passando fome e quase a metade das famílias brasileiras com alguma dificuldade para se alimentar. Todo alimento produzido pelo modelo industrial degrada as dimensões social e ecológica e isso inclui a produção de grãos, frutas e verduras, então, por quê criar uma tendência que limita só o consumo da carne ao invés de lutar pela soberania alimentar? Por quê criar uma tendência que diminui o consumo de carne se esse é o alimento com maior densidade nutricional? 

A CIÊNCIA produzida no campo da agroecologia já comprovou que as pequenas propriedades com sistemas integrados de produção são enormemente mais produtivas que a larga escala. São fazendas com menos de 2 hectares que produzem mais de 70% da comida do mundo. Isso usando menos terras aráveis, menos insumos químicos e menos água, mas para isso precisam integrar animais. Essa integração permite que uma produtora rural familiar use 20 vezes menos combustíveis fósseis que a produção industrial, enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas… ao mesmo tempo que fornece proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015; ver também Pablo Tittonell, Stephen Gliessman e Ana Primavesi). Ignorar esses dados e a força que a pequena escala ligada em rede tem para rearranjar a produção e distribuição bioregional em um contexto de escassez energética é criminoso. 

Essa tendência não faz sentido ecológico por várias razões. 

Primeiro, quando grande parte da população mundial ainda vive em déficit nutricional, o foco deve ser em produzir mais carne agroecológica e não em combater o consumo da carne industrial. Se a carne consumida fez parte de um sistema que regenera o ecossistema onde foi produzida, traz mais viabilidade para as famílias que produzem e para economia local, quanto mais gente se alimentando dela melhor. E nós já temos abordagens capazes de produzir carne assim. 

Segundo, nossos sistemas de produção devem ser biorregionais de modo a lidar com as especificidades climáticas e ecológicas. Aproximadamente dois terços do planeta é composto por regiões de clima semiárido e nessas regiões a agricultura familiar não se viabiliza sem animais. 

Terceiro, não precisamos de mais área para produzir carne, podemos usar a produção animal com um planejamento holístico de pastagens – que considera a ecologia, a economia e a qualidade de vida – para ciclar toda a matéria orgânica e regenerar as áreas já degradadas. Esses sistemas imitam os movimentos migratórios e conseguem aumentar muito o número de animais por área com a vantagem de diminuir enormemente o risco de queimadas.

Na questão do ativismo essa tendência de promover veganismo ou dietas à base de plantas ao invés da soberania alimentar, também não faz sentido. A soberania alimentar dá conta das complexidades, é plural, inclusiva e foi elaborada por uma diversidade enorme de pessoas que vivem a realidade rural nos vários biomas do planeta. A soberania alimentar garante o direito inalienável ao veganismo em suas várias vertentes de movimento, assim como uma dieta à base de planta ou qualquer outro tipo. Já a tendência de transformar o veganismo ou mesmo a redução do consumo da carne em uma direção para o movimento ambiental exclui indígenas, ribeirinhos, caatingueiros, quilombolas e as pessoas da agricultura familiar agroecológica que passam a se sentir atrasadas em relação a uma agenda criada nos centros urbanos por pessoas com um impacto ambiental imensamente mais danoso que o delas.

Um ativismo saudável e inclusivo focado em soluções deve apoiar a soberania alimentar, o êxodo urbano por uma reforma agrária bem planejada e concentrar sua energia em ensinar as pessoas a comprar TODOS os seus alimentos de quem produz agro-etno-ecologicamente em sua biorregião. Esse foco pode mitigar até 30% dos gases de efeito estufa que causam as mudanças climáticas no modelo INDUSTRIAL de sociedade enquanto promove a viabilidade econômica das pequenas produtoras e a qualidade de vida de quem vive no campo.

O que precisamos é de pensamento sistêmico, crítico e ecológico, de coragem, protagonismo coletivo e muita articulação em rede para descentralizarmos a tomada de decisão, a governança e o desenvolvimento de políticas públicas. Só em um viver biorregional onde a viabilidade econômica surge da pluralidade de ideias, da equanimidade entre as pessoas e da regeneração da saúde do solo, das pessoas e dos coletivos teremos um sistema alimentar digno, limpo e nutritivo para todas as pessoas.

A dissonância cognitiva dos filhos do agronegócio e quem realmente alimenta o Brasil

Na segunda-feira (dia 27/09/2021) o jornalista Fábio Pannunzio afirmou no Jornal Despertador, de seu próprio canal TV Democracia, no YouTube, que a permacultura, uma ciência do desenho ecológico, e a produção de alimentos orgânicos gastam três vezes mais terra do que a produção industrial, que tais abordagens não passam de “discurso bonitinho” e que só seriam capazes de alimentar em torno de 30 mil pessoas no planeta. O texto que segue é uma contribuição no sentido de desmentir tais absurdos e nesse intuito traz referências acadêmicas e argumentos apoiando a posição contrária a do jornalista Fábio Pannunzio.

Depois de lamentar os prejuízos trazidos pelas queimadas e apresentar grande parte de suas tendências cognitivas a favor do agronegócio e do uso dos pivôs centrais que hoje gastam em torno de 80% dos recursos hídricos do país em uma reportagem gravada na fazenda de sua mãe, Pannunzio destilou autoritarismo e ignorância ao impedir o colega Eumano Silva de expor sua opinião. Eumano começava a defender modelos alternativos de planejamento rural e agricultura como a Permacultura e os sistemas agroflorestais sucessionais, mas foi impedido de seguir argumentando. Ao pedir desculpas, Fábio disse: “Pode colocar sua opinião, mas vou confrontar você, te aviso, porque seu argumento está errado…” e seguiu:

“A informação técnica é a seguinte: permacultura, produção de orgânicos gasta três vezes mais terra, mais área agricultável do que a produção industrial. Essa é a realidade! Se todo mundo passasse a consumir alimentação orgânica 2/3 da população da Terra passariam fome porque a área agricultável não existe. E outra coisa, o dano ambiental seria gigante porque você precisaria desmatar praticamente toda a Amazônia para produzir a mesma quantidade de comida. Então, tem um discurso muito bonitinho… vegano, orgânico, e o escambal… isso serve para 30 mil pessoas, não serve para 7 bilhões. Essa é a posição correta… e aí não tem discussão porque esses dados são dados da própria ONU. Não tem o que fazer. E com toda essa produção industrial tão mal vista, ainda tem 1 bilhão de pessoas passando fome no planeta” (Fábio Pannunzio no Jornal Despertador, dia 27/09/2021, grifo meu).

As afirmações e atitudes do Fábio Pannunzio escancaram desinformações, mentiras, incoerências e seu viés de confirmação pró-agronegócio. Atitudes que persistiram durante as edições seguintes do programa.

Para além da incoerência de termos o criador da TV Democracia usando de grosserias e autoritarismo para silenciar a opinião de um jornalista que ele mesmo convidou para o programa, temos o uso incorreto das fontes e dos dados compartilhados. Segundo o Fábio, são relatórios da ONU que afirmam que a agricultura orgânica precisaria de mais espaço para produzir alimentos, muito embora ele não tenha compartilhado essas fontes. Fica evidende que o jornalismo do Fábio funciona só até que a matéria não critique o modelo de produção da fazenda da própria mãe, uma incoerência enorme.

À partir desse ponto, fica claro o viés de confirmação pró-agro mesmo que em sua retórica Fábio se posicione como pessoa que se importa com o colapso ecológico que estamos vivendo. Fábio não é capaz de admitir que o modelo de produção de sua família é parte do problema, não é capaz de ouvir um colega sobre as alternativas possíveis. A arrogância, a incapacidade de admitir que outras pessoas chegaram a princípios e práticas mais socialmente justas, ecologicamente regenerativas e economicamente viáveis impede o avanço das mudanças que precisamos realizar urgentemente!

As grosserias do Fábio deixaram claro que a dificuldade dele é ouvir que existem alternativas muito mais viáveis do que o modelo do agronegócio incorporado na fazenda da própria mãe. E Pannunzio é apenas um entre tantos que reconhecem que precisamos mudar, mas não se o custo da mudança questionar o modelo econômico atual e a viabilidade da familia com a agricultura industrial. É muita dissonância cognitiva!

O agronegócio não produz alimento, produz commodities para especulação no mercado financeiro às custas de muito subsídio hídrico, energético e econômico. Esse modelo, que transforma a agricultura em plataforma de escoamento para petroquímicos, também está intimamente ligado com a indústria dos ultraprocessados que causa a obesidade, diabetes tipo 2 e várias doenças crônicas que associadas com o coronavírus tem causado praticamente 80% das mortes durante a pandemia. E neste contexto, as declarações de Pannunzio, além de incoerentes e mal-educadas, são um desserviço! Mais ainda, são classistas porque defendem que o que temos disponível para a população pobre é o alimento industrial.

A agricultura industrial é uma das maiores causadoras dos processos de desertificação e mudanças climáticas que degradam severamente a natureza. Entretanto ela também está entre os setores que mais vão sofrer as consequências desses processos degradantes.

Dois esclarecimentos se fazem necessários. A Permacultura é uma ciência do desenho ecológico que combina estratégias energeticamente eficientes e socialmente justas para o manejo ecológico da água e dos efluentes, da produção alimentar (usando várias práticas e a integração animal), para a produção energética, para a construção de moradias e para a elaboração de políticas públicas e sistemas econômicos. A produção orgânica, na minha análise, já foi cooptada pelo modelo econômico vigente e portanto, não serve mais como direcionadora do movimento regenerativo. Nesse sentido trago aqui referências e argumentos pela agroecologia e a agrofloresta sucessional. Vamos aos fatos, cientificamente referenciados, para desfazer o desserviço do Fábio e sua linha editorial pró-agro.

“Qual modelo é mais necessário para a sociedade brasileira?”. O gráfico pode ser encontrado em uma publicação da Escola Milton Santos de Agroecologia de outubro de 2013.

A origem dos movimentos de conservação do solo no mundo todo vem das tempestades de poeira da década de 30 do século passado. Desde então, os cientistas sabem que a origem dessas tempestades é o hábito de cultivar (arar) o solo e produzir alimentos em sistemas monoculturais com solo exposto, ou seja, o modelo industrial de produção.

Sobre este modelo industrial de produção, a economista Maria-Helena Semedo, Diretora Adjunta da Organização de Alimentação e Agricultura (FAO) da ONU, declarou no forum do Dia Mundial do Solo em 2014 que se prosseguíssemos com o modelo industrial de agricultura teriamos apenas 60 anos restantes de colheitas até o colapso completo do solo nas áreas agricultáveis.

Miguel Altieri, doutor em agronomia, cientista prolífico e professor da Universidade da California explica que:

O desafio imediato que a agricultura sofre é como aumentar a produção alimentar para dar conta da população que cresce enquanto regeneramos os ecossistemas que já degradamos até o momento presente. Essa virada precisa ser feita usando a mesma quantidade de terra, menos petróleo, menos água e menos nitrogênio em um cenário regido pelo aquecimento global, conturbações sociais e crise financeira. A situação atual de falta de acesso ao alimento produzido, perda de diversidade biológica, erosão do solo superior e as doenças causadas pelo uso de agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados, por exemplo, mostram claramente que esse desafio não pode ser vencido pelo modelo de produção do agronegócio (Altieri, 2015)”.

Durante o programa de segunda-feira e nos subsequentes, Fábio constantemente argumenta à favor do modelo industrial por sua eficiência e uso da tecnologia inovadora. A dissonância cognitiva do Fábio faz ele separar o modelo de produção da agricultura industrial do modelo econômico, como se o primeiro não fosse consequência dos valores do segundo. Fábio diz que o agricultor produz, mas o sistema não é competente na entrega, mas ele não qualifica esse ‘agricultor’ e segue empurrando a culpa para outro setor, afinal, a fazenda da mãe não pode ser parte do problema. Mas Altieri, de novo, explica melhor o que Fábio faz questão de não ver:

“A razão pela qual a fome no mundo continua crescendo não é porque não produzimos alimento o suficiente. O problema é o acesso à comida e a desigualdade social e econômica. Nos Estados Unidos e na Europa cada pessoa joga fora em média 115kg de comida por ano, enquanto aproximadamente 2/3 da população mundial em países em desenvolvimento ainda vive na pobreza, ganha menos de $3 dólares por dia e não consegue comprar alimento suficiente para sobreviver. A razão verdadeira porque temos fome no mundo é porque a agricultura é controlada por corporações. E essas corporações controlam o que (e como) os produtores devem produzir e o que os consumidores podem consumir (Altieri, 2015)”.

Os argumentos de Fábio pela eficiência também não se sustentam quando vemos os dados das pesquisas de Altieri sobre a produção primária global. Segundo Altieri, além da produção de alimento pelo agronegócio só alimentar 30% da população mundial, ela usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (2015). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO, a erosão causada pelo agronegócio perde em torno de 12 a 15 toneladas de solo por hectare por ano! Ou seja, o modelo do agronegócio, produz mais solo erodido que aliementos por hectare ano.

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, em comparação com o agronegócio, produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). O que é mais importante, os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, por exemplo, são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios. Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Outra informação importante é que enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015).

No Brasil temos dados ainda mais convincentes sobre métodos de produção da agricultura familiar e os que levam em conta a ecologia florestal. O Dr. Walter Steenbock, autor de vários outros livros e artigos científicos, compila uma série de dados reveladores em sua última obra, A Arte de Guardar o Sol. Dados do Atlas do Agronegócio citados no livro revelam que: 453 milhões de hectares do Brasil estão em uso privado e 45% das propriedades com mais de 1000 hectares compoem apenas 1% dos imóveis rurais. O livro de Steenbock traz ainda, por meio de dados do Censo Agropecuário de 2006 que: a agricultura familiar, com apenas de 10 a 15% do crédito rural e apenas 24% da área produtiva total, produz 70% dos alimentos e emprega 70% da mão de obra (Steenbock, 2021).

O que os dados sobre a agroecologia e as agroflorestas revelam no Brasil e no mundo é que o agronegócio não é sustentável nas dimensões social, ecológica e nem econômica. Ter 20% do território de uma fazenda do agronegócio, em reservas legais (normalmente onde as máquinas não conseguem operar) não compensa uma agricultura industrial que cria desemprego no campo, desmata, desperdiça e contamina a água e erode o solo para implementar monoculturas (frequentemente trasngênicas) em 80% do território que ocupa.

Precisamos ter coragem de admitir que nosso modelo econômico atual e a produção industrial de alimentos são responsáveis pelo colapso ecológico que estamos vivendo. Precisamos ter coragem para parar de usar desculpas como ‘a transição leva tempo’, ‘isso é maniqueismo’ ou ‘não podemos ser tão radicais’! Até porque essa retórica só favorece um grupo minúsculo de privilegiados enquanto lança toda a vida no planeta para extinção em massa.

Sobre a velocidade com que conseguimos mudar quando necessário, dois episódios ilustram bem o que é culturalmente e tecnologicamente possível. Ao final da Segunda Guerra Mundial os americanos já haviam implantado 20 milhões de Hortas da Vitória (Victory Gardens) que supriam 40% de todas as hortaliças e tubérculos que alimentavam o país à época. Isso levou menos de 5 anos! Durante a Guerra Fria, depois de saber que os soviéticos haviam enviado uma espaçonave não tripulada para a Lua, os americanos levaram apenas 10 anos para levar uma espaçonave tripulada! David Suzuki, o ecologista e autor canadense, narra o esforço científico e econômico coletivo necessário para conseguir esse feito para nos mostrar que com a mentalidade certa somos capazes, sim, de grandes mudanças rapidamente. Como temos meros 5% de chance de reverter as mudanças climáticas em tempo de evitar uma hecatombe, ele reforça construir essa mentalidade é uma questão de vida ou morte, literalmente.

É com essa mentalidade e velocidade que precisamos implementar a reforma agrária agroecológica, alcançar a soberania alimentar que garante a alimentação saudável para todos e a biorregionalização das cadeias de produção e consumo. Do contrário, estaremos assinando a cumplicidade com a extinção em massa.

Todas as áreas produtivas devem passar por essas transições rapidamente até que sejam 100% regenerativas no social (trazendo justiça e dignidade para as pessoas do campo), no ecológico (produzindo com princípios e práticas que melhoram os processos ecossistêmicos) e no econômico (trazendo equanimidade para todas as pessoas). Como diz Muhammad Yunus, prêmio Nobel de Economia, se quisermos escapar a extinção em massa que estamos causando, precisamos de Um Mundo com 3 Zeros – zero emissões de gases de efeito estufa, zero desemprego com todos sendo empreendedores em suas vocações e zero concentração de renda.

Nota 1: É importante dizer que o plantio direto em palhada, apresentado por Pannunzio como uma prática “sustentável”, é evidentemente melhor que o plantio com solo exposto, mas não é capaz de substituir a biodiversidade e os serviços ecológicos prestados pela vegetação nativa do cerrado ou das florestas Atlânticas ou Amazônicas.

Nota 2: Não recomendo assistirem tamanha grosseria e autoritarismo vindos de um jornalista que se diz democrata, mas deixo o link para o programa junto com as referências para quem quiser conferir.

Nota 3: A lista de referências com economistas, agronomos, cientistas climáticos, ecologistas é muito mais extensa do que o que apresento aqui. Na verdade, o que a ciência idonea traz é que o modelo industrial de produção de alimentos é um risco para a humanidade e o planeta. A única ‘ciência’ que discorda dessa premissa é a produzida pelas corporações dos petroquímicos, transgênicos e maquinário industrial, mas para o escopo de uma resposta informativa e transparente aos desserviços de Fábio Pannunzio os links ao longo do texto, as referências citadas e as deixadas como sugestão de leitura abaixo representam os argumentos centrais com bastante propriedade.

Referencias:

ALTIERI, M. A. (2015). Agroecology: Who will feed us in a planet in crisis. Paper presented at the Earth Talk. https://www.youtube.com/watch?v=LKfiabQ-j0E

ALTIERI, M. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3 ed. São Paulo: Expressão Popular; Rio de Janeiro: AS-PTA, 2012. 400 p.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Agropecuário 2006: agricultura familiar, primeiros resultados. Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação. Rio de Janeiro: IBGE; 2006

FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. State of knowledge of soil biodiversity: satus, challenges and potentialities. Rome, FAO, 2020

GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000

Jornal Despertador, TV Democracia, dia 27/09/2021 – https://www.youtube.com/watch?v=KLcCbMhlidU&t=3814s

SANTOS, M.; GLASS, V. (orgs). Atlas do agronegócio: fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll, 2018

STEENBOCK, W. A arte de guardar o sol: padrões da natureza na reconexão entre florestas, cultivos e gentes. Rio de Janeiro, Bambual Editora, 2021.

Soil Erosion: the greatest challenge for sustainable soil management – http://www.fao.org/3/ca4395en/ca4395en.pdf

TITTONELL, P. (2014). Feeding the world with Agroecology Paper presented at the TEDx Ede https://www.youtube.com/watch?v=iKtrwdsvIko

A Doutrina do Choque, a pandemia e a pergunta: “Agro pode ser regenerativo?”

Enquanto a fome atinge 19 milhões de brasileiros durante a pandemia, quase a metade das famílias têm algum grau de dificuldade para se alimentar e cerca de 27 milhões de pessoas sobrevivem em média com R$246 reais por mês o Brasil criou 238 bilionários durante a mesma pandemia. Juntos eles têm quase o PIB do Chile.

Não coincidentemente, a maioria desses negócios são bancos, fundos de investimentos e conglomerados de supermercados, ou seja, o tipo de negócio que tira a autonomia da população. E nós seguimos cegos sem uma revolta popular em massa diante desse absurdo. Com certeza e folga poderíamos usar estes recursos para amparar os que passam fome e dificuldade nesse momento tão sofrido da nossa história.

Comento hoje alguns links para documentários, reportagens e aulas que foram compartilhadas em minhas redes desde a semana passada.

O Brasil chega a 238 bilionários em 2020; fortuna total é quase o PIB do Chile – Matéria do caderno de economia do Portal UOL.

Para ajudar a entender como essa apatia diante de crimes tão graves contra a humanidade são possíveis, eu trago o trabalho da ativista e autora Naomi Klein, “A Doutrina do Choque”. O documentário foi compartilhado pela Márcia Silva (@simbioticabioaliemntos), ativista do movimento agroecológico no RS que participa do grupo de Agricultura Regenerativa do telegram.
Nota: Quem quiser participar é só pedir o link por mensagem direta, não disponibilizamos o link para evitar os ataques de robôs).

Naomi traça a genealogia do “Capitalismo de Desastre” desde os experimentos conduzidos pelo psiquiatra Ewen Cameron em parceria com CIA. Esses estudos mostravam como as pessoas ficavam mais suscetíveis a sugestões de comportamentos e confissões após receber eletrochoques e/ou passar por longos períodos de privação sensorial trancafiados sem poder ver o mundo externo, sem cores, sem sentir sabores, texturas e afagos.

Esse link foi compartilhado no grupo alertando para o fato de que a pandemia, embora real e desastrosamente assassina mediante a suposta incompetência de Bolsonaro, pode estar sendo usada como uma Doutrina de Choque para que a população aceite sem questionar as reformas legais, fiscais e privatistas da agenda neoliberal desse governo.

E eu digo suposta incompetência porque quando analisamos a Doutrina do Choque e como ela foi usada por Milton Friedman – o economista guru da escola de Chicago, onde Paulo Guedes se formou – fica claro que o neoliberalismo sempre usou o choque, a desgraça, para fazer com que a população aceitasse reformas que só privilegiam a elite.

Exatamente como estamos agora, em meio à pandemia, aceitamos inertes que 238 bilionários tenham a riqueza de um país inteiro, enquanto 19 milhões de brasileiros passam fome durante a pandemia e 27 milhões de pessoas sobrevivam em média com 246 reais por mês.

A desgraça brasileira atual está à serviço de uma elite sociopata, classista e subserviente a poderes corporativos estrangeiros.

Leiam o livro e assistam o filme. A maior hipocrisia esclarecida é que em nenhum lugar onde a Doutrina do Choque foi utilizada para implementar a economia neoliberal as condições de vida da população melhoraram. Via de regra, a elite mundial força a mão dos grandes impérios, usa de violência, desinformação e controle para concentrar renda, poder e território. É o livre comércio desta elita, nunca foi do bem estar comum.

Tanto o livro quanto o filme trazem vários exemplos dessa hipocrisia desumana indo desde o primeiro laboratório de Friedman, a América Latina, passando pela Inglaterra, Polônia, China, União Soviética e Ásia, até chegar na Guerra do Iraque.

E o agronegócio nesse contexto atual, como fica?

Enquanto a pandemia e as mais de 4 mil mortes diárias são usadas como Doutrina do Choque, o governo desmonta as instituições ambientais, favorecendo o agronegócio, a mineração e a construção civil, que nada tem a ver com produção de alimento, infraestrutura ou moradia. Estas são só fachadas para as maiores plataformas de escoamento de petroquímicos, concentração de renda e poder nas mãos de pouquíssimas corporações transnacionais.

O IBGE, claro! Está sendo desmontado também, porque sem dados e análises sérias sobre como está a população, fica mais fácil governar com a Doutrina do Choque, notícias falsas e propaganda – o Correio Brasiliense traz uma reportagem sobre este tema .

E aí vem a propaganda. Enquanto todas as instituições que poderiam frear os crimes ambientais do agronegócio e documentar sua concentração de renda e terras são desmontadas, as notícias de que o agronegócio pode ser regenerativo aparecem.

O Estado de São Paulo publicou uma reportagem intitulada “Agricultura Regenerativa”. Nela Roberto Rodrigues conta uma estória da Carochinha que os avanços nos últimos 35 anos foram em melhoramento genético (leia-se transgenia), adubação (leia-se escoamento de produtos petroquímicos e mineração) e mecanização (leia-se desemprego no campo e êxodo rural forçados), mas que agora “o mundo rural avalia ações ligadas à biologia”.

Roberto Rodrigues diz que a Agricultura Regenerativa pode ser vista como um agente de paz, mas não aborda em nenhum momento a definição do termo que existe para além da regeneração ambiental, a regeneração sociocultural – que demandaria uma reforma agrária e modos de produção que aplaquem a cultura e qualidade de vida das pessoas no campo – e a regeneração econômica que demanda que os recursos gerados circulem dentro da biorregião onde foram produzidos.

O Globo Rural deste domingo, dia 11/04, traz na reportagem sobre a “Agricultura Regenerativa” a produção de grãos de milho e soja orgânicos em milhares de hectares como um avanço. Em sua versão escrita um dos sócios da empreza informa um quadro com apenas 60 funcionários. A reportagem não explica nem contextualiza como vivem esses funcionários ou vácuo humano causado por sistemas de produção que podem ocupar milhares de hectares com um número tão pequeno de pessoas.

A reportagem também não revela que o que na verdade se desenrola é o mercado de commodities orgânicas. E, que como todo mercado de commodities, esse mercado “orgânico” tem muito mais a ver com concentração de terras, poder, renda e capital especulativo que com produção de alimentos saudáveis regenerando as dimensões socioculturais e econômicas das biorregiões onde esses grãos são produzidos.

A agrofloresta, que em área comparativa com os milhares de hectares dedicados a produção de grãos, é uma parte quase inexistente, é usada como garota propaganda. E por fim, um branco super privilegiado é apresentado como herói, escondendo assim o protagonismo de mulheres, de indígenas, de povos tradicionais, do MST e tantos outros que protagonizam o movimento realmente regenerativo que é a AGROECOLOGIA.

Uma das missões mais importantes que temos hoje é protagonizar a definição, a prática e o exemplo da Agricultura Regenerativa. A definição e as métricas e indicadores desse termo precisam ser amplamente difundidos por nós que protagonizamos a agroecologia, a empatia, a economia biorregional e o êxodo urbano pelo movimento de transição.

Para ser verdadeiramente regenerativo o agro precisa distribuir terras, renda, ter planos de carreira com salários dignos para seus funcionários. Precisa cuidar para que as pessoas que vivem no campo, que são plurais e vão muito além da lógica de produção, tenham tempo livre, qualidade de vida, segurança e soberania sobre seus territórios e alimentos. Precisa regenerar a economia em sua biorregião e não produzir para o mercado financeiro.

O dia que a produção do agro for regenerativa nesses sentidos, talvez ela seja verdadeiramente regenerativa.

Até lá, o que o agro faz ao usar esse termo é usurpar o protagonismo das pessoas do campo, dos movimentos sociais e ativistas. Da mesma maneira que já usurpou e distoreceu os termos “orgânico” e “sustentável”.

Aqui no site eu já escrevi sobre este tema no artigo O que é um produto orgânico? Podemos confiar no rótulo? e sobre Como funciona o controle de danos do Agronegócio explicando como esses conglomerados transnacionais usurpam e distorcem os termos.

Para fechar eu trago para vocês a aula Regeneração de Solos Degradados com Processos Biológicos, do agricultor e ativista Pedro Meza (Instagram @pedro.meza.33).

Um testemunho de como a soberania alimentar, a saúde e a possibilidade de expressarmos nossas vocações em sua plenitude está diretamente ligada ao acesso de um pedaço de chão onde o lar vai do solo à mesa onde comemos. É por isso que digo que só escaparemos essa extinção em massa em Santuários de Sanidade Mental e Ecológica.

Pedro é um artesão, um guardião e um druida do solo! Buscando soluções que trazem autonomia e eficiência para o produtor, Pedro experimenta com vários métodos de regeneração de solos degradados. Tinturas, microorganismos eficientes, chás de composto e outros inoculantes de vida vão para o solo e chegam para a mesa da família com muito carinho, com muita competência e um senso estético de um renascentista da regeneração planetária.

Viver como o Pedro vive, em contato direto com sua vocação, com cheiros, texturas, sabores, cores é um remédio para a privação de sentidos praticada pela doutrina do choque durante a pandemia.

Não temos um conjunto de soluções que não passe necessariamente por uma gestão ecológica, social e economicamente regenerativas, pela reforma agrária e o esvaziamento das cidades, pela agroecologia e pela soberania alimentar!

Se vocês têm se beneficiado pelo meu conteúdo e reflexões, eu peço que se inscrevam no canal do youtube, na lista de emails aqui no site, na plataforma de interação sobre planejamento rural e agricultura regenerativa e que compartilhem o conteúdo com suas recomendações.

Tenho também um link para o financiamento coletivo da produção deste conteúdo no Apoia.se . Nesse sentido, o apoio de vocês é super importante porque me ajuda a construir a base material que preciso para continuar produzindo conteúdo de pensamento crítico, ecológico e sistêmico para compartilhar.

Por fim, quem se interessar pela transição, pelo planejamento rural e por se conectar com uma rede de produtores e ativistas que estamos tecendo, meu próximo curso começa dia 27/04. Vem com a gente fazer parte das soluções! Clique aqui para fazer sua inscrição!

Porque apoio a Soberania Alimentar e não o Veganismo Fundamentalista

Para a maioria dos adeptos, o veganismo não é uma dieta, é uma ideologia que se opõe ao especismo. O Especismo, é o ponto de vista de que uma espécie, no caso a humana, tem todo o direito de explorar, escravizar e matar as demais espécies de animais por considerá-las inferiores.

Embora o especismo seja a base filosófica, frequentemente apóstolos do veganismo fundamentalista trazem argumentos relacionados ao meio ambiente, a espiritualidade e a nutrição.

Eu não tenho nada contra pessoas veganas, mas não concordo com o especismo como base ideológica e muito menos com os argumentos ecológicos, espirituais e nutricionais. O meu entender é que não é possível defender a agenda de conversão de grande parte do movimento vegano e defender a Soberania Alimentar ao mesmo tempo.

Soberania Alimentar implica que as pessoas têm o direito de decidir sobre sua dieta e de acesso aos meios de produção para mantê-la. A Soberania alimentar também implica o direito a decidir como comercializar se for o caso e se essa comercialização atende a biorregião, o país ou uma agenda de exportação. Dentro desse paradigma a ética que leva cada pessoa a decidir o que comer é um direito.

Eu defendo a Soberania Alimentar e dentro desse paradigma que a produção seja agro-etno-ecológica. Em geral esse termo indica uma produção que se baseia nos princípios ecológicos como é o caso da agrofloresta sucessional ou da agroecologia e isso se aplica também a esses sistemas quando eles integram a produção animal. Nesse caso o sufixo ‘etno’ indica que o sistema de produção garante que durante toda sua vida o animal é criado com sua dieta natural e expressando suas características intrínsecas. Herbívoros criados exclusivamente a pasto. O porco livre para chafurdar expressando sua ‘porquice’… A galinha sua ‘galinhice’… ciscando, tendo acesso a plantas, insetos, vermes e grãos porque é onívora… Em outras palavras nenhum animal é criado em confinamento. E quando falo de pecuária, falo de pecuária com planejamento holístico de pastagens.

O foco na soberania alimentar opera no âmbito das soluções. Constrói o direito de todos a decidir o que comer e aos meios de produção para fazer isso de forma saudável. E por ser uma política inclusiva, isso inclui os veganos também!

Quando se advoga o veganismo com argumentos ambientais o foco está no problema: a carne que degrada o meio ambiente e é produzida em um paradigma que só visa lucro. Aqui vale dizer que uma dieta à base plantas suprida pelo agronegócio via supermercados faz parte do mesmo paradigma destrutivo e degrada da mesma maneira.

Entender que tanto a carne quanto as verduras e legumes vendidos nos supermercados degradam porque participam do mesmo paradigma de produção é essencial. Assim podemos entender que a mudança a ser feita é no sentido de que qualquer alimento seja produzido agro-etno-ecologicamente.

Nesse sentido a propaganda vegana não é honesta. Primeiro porque faz comparações entre a carne e verduras e legumes sem distinguir os meios de produção. Segundo porque sempre usa como base a carne produzida em confinamento ou na pecuária extensiva.

A questão ambiental

Aqui é importantíssimo ressaltar que existe produção animal que restaura o agroecossistema. A procura por esse tipo de carne liga onívoros éticos com produtores locais reforçando uma tendência que restaura ecossistemas, economias e culturas.

Ainda na questão do meio ambiente precisamos entender que aproximadamente dois terços do planeta são compostos por regiões semiáridas ou de latitudes extremas onde a produção local precisa incluir animais. Especialmente se queremos restaurar a cultura e comércio justo biorregionais.

No Brasil temos 3 biomas onde a sazonalidade das chuvas fazem com que os animais sejam fundamentais nos processos de regeneração: a caatinga, o cerrado e os pampas. O nordeste brasileiro tem o semiárido mais populoso do mundo e mais de 20 milhões de hectares já em processo de desertificação causada pela agricultura industrial e a pecuária extensiva (dados da Sudene). Nesse caso o Gerenciamento Holístico de pastagens é o mais indicado por levar em conta as dimensões ecológicas (por planejar as rotações baseado na recuperação da vegetação e biodiversidade), sociais (por priorizar a qualidada de vida dos produtores) e econômicas (porque produz em harmonia com a ecologia). Esse sistema é capaz de restaurar o solo, os lençóis freáticos e a biodiversidade rapidamente.

Dentro desse contexto também vale comentar as pesquisas do Dr Miguel Altieri, agroecologista chileno que publica pela Universidade da Califórnia e argumenta que além de serem mais resilientes e biodiversas, as propriedades com sistemas de produção animal integrados chegam a ser 20 vezes mais energeticamente eficientes que as outras (Altieri, 2014).

Essa eficiência energética é extremamente importante para que a agricultura agro-etno-ecológica não seja dependente de insumos de uma matriz energética que sabemos que não vai durar. Ela também é fundamental para que a escolha alimentar de uns privilegiados não seja subsidiada pela dignidade e saúde dos produtores rurais. (Discuto o papel da pecuária regenerativa na soberania alimentar e biorregionalização das cadeias de produção pós-pandemia nesse artigo )

A questão nutricional

Todos os estudos sobre dietas a base de plantas fazem comparações com a S.A.D, a Standard American Diet ou Dieta padrão americana, ou seja com alimentos altamente processados e de baixíssimo valor nutricional. Não existem estudos comparativos entre dietas à base de plantas com dietas onívoras agro-etno-ecológicas.

Frequentemente as propagandas também comparam a quantidade de proteínas, cálcio ou ferro em determinados alimentos e a carne, mas não comentam sobre a biodisponibilidade, ou seja, que quando esses nutrientes vem de uma carne saudável nosso organismo absorve mais rápido e com menos esforço metabólico.

Na questão nutricional o consenso científico é de que as dietas veganas e vegetarianas podem nos deixar deficientes em muitos nutrientes. Entre eles as vitaminas do complexo B, cálcio, ferro, zinco, ácidos graxos de cadeia longa e as vitaminas A e D, que são solúveis em gordura. Aqui eu deixo links para 3 referências científicas (em inglês):

A Diana Rodgers, nutricionista americana que escreveu o livro Vaca Sagrada (Sacred Cow) que agora está para ser lançado como o documentário;

– o mestre em nutrição Chris Kresser, que tem feito pesquisas e revisões bibliográficas constantes sobre o tema;

– e a Dra Georgia Ede, que tem alertado para o perigo das dietas veganas para a saúde cerebral pela fala de DHA – um ácido graxo ômega 3 chamado docosa-hexaenoico – que as plantas não fornecem. (Fiz uma tradução livre e resumida desse vídeo no artigo A carne e a mente: como nossa saúde neurológica e mental pode estar ligada a ingestão de carnes saudáveis.

A questão espiritual

Na questão espiritual eu também não vejo coerência. Não existe vida sem morte. Não existe natureza sem sofrimento. Ninguém julga a onça por comer a paca, o tamanduá por comer as formigas ou a micorriza por comer os nematóides no solo. As cadeias alimentares fazem parte da estratégia de complexificação da vida para combater a entropia. Comunidades indígenas e tradicionais, que para mim estão entre os seres mais evoluídos exatamente por sua conexão com a natureza, não são veganos. O Dalai-lama não é vegano!

Um senso de espiritualidade que faz com que uns se achem mais evoluidos que outros, não pode nos conectar com a fonte, com o um. Um senso de espiritualidade que nos faz acreditar que podemos viver como seres supremos, supostamente mais evoluidos e por isso desconectados da cadeia alimentar, de novo, não cumpre sua função de nos reconectar com a fonte.

O especismo

Por fim, a questão do especismo para mim não é coerente exatamente por entender que nós evoluimos como seres humanos fazendo parte do ecossistema e das cadeias alimentares, como expliquei acima.

Existe uma relação simbiótica entre várias espécies. As aves que seguem as manadas de herbívoros, os peixes que limpam dos dentes do tubarão, os carniceiros que seguem os que predam em bando. Entre nós que aprendemos a caçar usando aves de rapina e cães. Essa evolução se deu por milhares de anos e por criar relações de benefício mútuo entre as espécies e dessas espécies com os ecossistemas que habitam.

É por isso que temos mais proximidade com algumas espécies e comemos outras. Isso acontece por toda a cadeia alimentar.

E não se enganem. Em um futuro não muito distante a diminuição dos subsídios energéticos vindos dos combustíveis fósseis forçará o exôdo urbano (re)criando as condições para uma vida mais rural. Nesse contexto, um número muito maior de pessoas vai entender que o veganismo é um direito, mas está longe de ser uma alternativa universal viável em grande parte do planeta.

Nos meus cursos, trabalhos e conteúdo que produzo como educador e ativista, eu apresento os animais como uma das ferramentas que temos para reverter os processos de desertificação e mitigar as mudanças climáticas.

Com isso, frequentemente alguns fundamentalistas tentam desqualificar meu trabalho ou as fontes científicas que uso. É aquela velha tática de oratória onde se tenta desqualificar o interlocutor para não ter que dialogar com a idéia. Nesses casos costumo dizer que é nessa atitude que o veganismo progressita encontra a extrema direita. E vejam que os autores com os quais embaso meu trabalho são quase todos progressistas ativistas da agroecologia como é o caso Dra. Ana Primavesi, Dr. Steenbock, Dr. Miguel Altieri, Dr. Pablo Tittonell, Dr. Gliesmann e o próprio Allan Savory.

Afirmo frequentemente que não temos mais tempo para não usar todas as ferramentas possíveis para reverter os processos de desertificação, as mudanças climáticas e o antropoceno. E embora pareça contraditório de início porque a grande maioria das pessoas nunca viu esses sistemas funcionando na regeneração e tem resistência para aceitar essa inovação na ecologia, os animais fazem parte desse conjunto de soluções quando utilizados da maneira correta.

Espero que tenha ficado claro que é exatamente por defender a soberania alimentar que entendo o veganismo como um direito, mas não um dever de todo ambientalista. Como expliquei, não concordo com o viés evangelizador, a propaganda tendenciosa do movimento, nem as manifestações que ferem o direito alheio (como no caso de propriedades invadidas). Mas acredito ser extremamente importante que todas as pessoas tenham o direito de escolher o que comer e tenham acesso aos meios de produção.

E a grande diferença entre esses dois movimentos é que o ramo fundamentalista do movimento vegano cria uma hierarchia falsa onde de acordo com um sistema de crenças os onívoros são supostamente menos ‘ambientalistas’ porque ‘ainda’ comem carne. Enquanto a soberania alimentar, não cria divisões que enfraquecem o ativismo socioambiental, abraça a diversidade e celebra as diferenças defendendo o direito de escolha de todos.

Nota:

Se você tem aprendido e se beneficiado do conteúdo multimídia do Podcast Impacto Positivo, eu peço que se inscreva no canal, compartilhe o conteúdo com suas recomendações e considere ser um patrono com doações mensais em nossa página do apoia-se – https://apoia.se/impactopositivo

Como funciona o controle de danos do agronegócio

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões! Só em isenção para as corporações que vendem agrotóxicos o Brasil deixa de arrecadar anualmente 10 bilhões em impostos. “Esse pacote de isenções, revelado por um esforço de pesquisa da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e pelos pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro passou a ser chamado “bolsa-agrotóxico“!

Mas isso é só no Brasil e só em isenções fiscais. No mundo as 10 maiores empresas que produzem agrotóxicos lucram 39.62 bilhões por ano com a agricultura da morte.

O agronegócio diz que é preciso subsidiar a indústria do veneno porque sem ela não seria possível produzir alimentos acessíveis. Mentira! O agronegócio produz mais comódites em grãos e produtos transgênicos que alimento. Na verdade sairia muito mais barato taxar apropriadamente essa indústria da morte e subsidiar a produção de alimentos saudáveis para a população por meio da agricultura familiar, que já produz em torno de 70% do alimento usando apenas 20% das terras aráveis e 30% da água usada na agricultura.

Um estudo publicado na revista Saúde Pública revela que para cada US$ 1 gasto com a compra de agrotóxicos no Paraná, são gastos U$$ 1,28 no SUS com tratamento de intoxicações agudas — aquelas que ocorrem imediatamente após a aplicação.

Agravando ainda mais os custos que essas empresas empurram para a sociedade, estudos científicos sérios apontam que os casos crônicos de doenças como o câncer causadas pelo uso de agrotóxicos no Brasil são subnotificados. A realidade é que para cada caso notificado existem 50 que passam despercebidos ou são deliberadamente escondidos por essa indústria bilionária (PIRES, D.; CALDAS, E.; RECENA, M.C., 2005)! Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Em 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos o que dificulta muito a continuação das pesquisas.

Esses e outros dados alarmantes estão disponíveis no livro Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Européia, da Dra Larissa Bombardi, uma adaptação da tese de pós doutoramento da autora publicada pela USP.

Mas existem também os custos ambientais, que também são empurrados para a sociedade por essas corporações dos agroquímicos. O Fórum Econômico mundial estima que a pandemia atual custará entre 8.1 a  15.8 TRILHÕES de dólares para a população mundial e quase a totalidade da ciência publicada indica que quanto maior as taxas de desmatamento, quanto mais centralizada a produção, maior o risco de novas pandemias.

Ilustração mostrando como o desmatramento aumenta as chances de termos novas pandemias

Essas corporações bilionárias investem milhões anualmente em propaganda para impedir a disseminação de conhecimento sobre os custos reais de suas ações na saúde, na sociedade e no meio ambiente.

Essa estratégia de marketing é chamada ‘controle de danos’. Nesse momento, a estratégia do governo Bolsonaro no Brasil, por exemplo, é relativizar e questionar os estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, não com pesquisas de igual rigor científico, mas com campanhas propagando falsas informações.

O ‘controle de danos’ visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública dessas empresas de agroquímicos, e consequentemente aos seus lucros. Isso porque as consequências genocidas do uso desses produtos está se tornando uma unanimidade científica que tem informado a população em geral.

O Brasil permite 5000 vezes mais glifosato na água potável que países desenvolvidos – em Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Só no Brasil, essa “bolsa-agrotóxico” inclui investimentos públicos milionários em gigantes transnacionais do setor agroquímico. Um levantamento feito pela Repórter Brasil e a Agência Pública mostra que, nos últimos 14 anos, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestou R$ 358,3 milhões a empresas agroquímicas (com juros subsidiados pelo governo) e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), agência do governo que financia inovação em empresas, transferiu R$ 390 milhões a grandes produtores de pesticidas para pesquisa e inovação. Esses são os valores que bancam a pseudociência em muitas das faculdades de agronomia, engenharia florestal, zootecnia e veterinária no Brasil.

Essa é a estratégia usada pelo agronegócio no Brasil. Vídeos, artigos e memes tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando o impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária no Brasil.

Dentro da estratégia de ‘controle de danos’ essa abordagem é chamada de re-enquadramento. Ela consiste na mudança sutil do foco, do enquadramento, tirando do centro do debate a questão dos malefícios causados por esse modelo industrial de produção e fazendo com que as pessoas pensem a discutir, por exemplo, que o Brasil está atrasado em relação a outros países supostamente mais desenvolvidos e que ainda é o país com maior área de florestas em pé.

Ratos alimentados com milho transgênico e água com glifosato, Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Entretanto, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar e que devastação nenhuma é aceitável. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas enquanto concentra dinheiro, território e poder.

Os setores simpatizantes desse governo, os acadêmicos ‘colonizados’ e os departamentos de marketing dessas corporações seguem estágios dentro da estratégia de ‘controle de danos’.

Primeiro, ignoram os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizam e descrevem as pesquisas e a agricultura regenerativa de forma imprecisa. Em último caso conduzem pesquisas e comparações falsas e difamam pessoas e instituições com opinião contrária para, finalmente, desacreditar as alternativas socialmente, ecologicamente e economicamente viáveis. (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

A contra-inteligência é uma das práticas comuns no “controle de danos”. Ela consiste em inundar os meios de comunicação com desinformação pintando como polêmico ou controverso o fato já comprovado pela ciência de que os agroquímicos causam câncer e outras doenças crônicas graves e que a agricultura industrial é uma das maiores causas do Antropoceno, a sexta maior extinção em massa na história da vida no planeta. Isso, simplesmente porque o consenso científico vai contra o imperativo de lucro de umas poucas corporações internacionais.

A verdade é que a única maneira de alimentar a população mundial sem causar devastação ambiental, doenças crônicas degenerativas e o êxodo rural é com a agricultura familiar agroecológica. São os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, na grande maioria mulheres, que produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial.

E elas fazem isso usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

A verdade econômica também é muito clara! Sem os subsídios fiscais, os perdões anuais de dívidas bilionárias e somando o custo da destruição ambiental e da saúde humana à produção agroindustrial, nenhuma dessas corporações se sustenta economica ou ecologicamente.

A única maneira de garantirmos um futuro com água e ar limpos e alimentos verdadeiramente nutritivos para as próximas gerações é gerindo nossos recursos de maneira socialmente justa, ecologicamente restauradora e economicamente viável e isso só a agricultura familiar agroecológica pode fazer.

A “grande escala” não é a solução, é o problema

A escala de aplicabilidade da agricultura regenerativa é um ponto que tenho abordado muito em aulas, não para criticar a agrofloresta ou qualquer outra abordagem de produção em larga escala ou quaisquer dos seus adeptos, mas para criar diálogo e buscar soluções que, de fato, abordem a raiz do problema.

O trabalho de pesquisadores tarimbados como Sebastião Pinheiro, Ana Primavesi, Miguel Altieri, Pablo Tittonell, Gliessman, entre outros, traz que são os pequenos produtores com propriedades até 2 hectares que produzem a maior parte dos alimentos (não comódites) do mundo. Aqui no Impacto Positivo o Dr Walter Steenbock já explicou como o agronegócio tem contribuido para a degradação do meio ambiente e a perda da biodiversidade, e como juntos esses fatores nos levaram ao Antropoceno; a sexta maior extinção em massa na história do Planeta Terra.

Para viabilizarmos uma “grande escala de produção” no paradigma atual são necessárias grandes propriedades, maquinário, investimento e concentração de renda. A larga escala, então, em qualquer abordagem agropecuária, exclui social e economicamente o pequeno produtor. Mais ainda, ela frequentemente tem que escoar sua produção muito além das fronteiras biorregionais perpetuando assim problemas de poluição relacionados a cadeia de distribuição.

A grande escala de produção agropecuária continua ‘tentando’ resolver um outro problema de escala que criamos ao projetarmos mega-cidades. Esse tipo de urbanismo é um erro social, econômico e ecológico que só foi alcançado graças a abundância de combustíveis fósseis, que já sabemos estar em rápido declínio de extração.

É a velha lógica capitalista… ainda trabalhando na eficiência (no caso a escala) e substituição (a tecnologia agroflorestal ou outra abordagem regenerativa) e não no redesenho (estágios de mudança elaborados Stuart Hill, PhD, para adoção de uma agricultura sustentável). Redesenhar, no caso, seria redesenhar nossos sistemas de produção para incluir mais gente com qualidade de vida e viabilidade econômica e ecológica no campo. O redesenho seria uma produção de pequena e média escala, ligada em rede e coordenada em agroindústrias cooperativas, desinchando e resolvendo em parte o problema que são as grandes cidades.

O gráfico usado no cabeçalho tem circulado na internet com o título “Qual modelo é mais necessário para a sociedade brasileira?”. O gráfico é mais antigo e pode ser encontrado, por exemplo em uma publicação da Escola Milton Santos de Agroecologia de outubro de 2013. Mas é pertinente que tenha sido trazido à tona novamente haja visto a preferência do governo atual (2019) em subsidiar o agronegócio, suas corporações e práticas que degradam a saúde humana e a ecologia. Esse mesmo gráfico também circulou alguns grupos dos quais faço parte e onde cogitamos a utilização da agrofloresta sucessional em larga escala. Mas trabalhos importantes de pesquisadores já citados acima confirmam a noção de que a grande escala é o problema, não a solução.

Então a pergunta que fica é: queremos aumentar escala de produção para atender demandas de um projeto de civilização já falido ou queremos começar outro projeto produzindo de forma holística (social, econômica e ecologicamente harmoniosa)?

Pequenos produtores ligados em rede em suas biorregiões formam uma grande escala, mas o paradigma é outro, é cooperativo, local e descentralizado. Portanto de pouca utilidade para a ideologia vigente, o mercado financeiro e os pouquíssimos que lucram com ele.

Os objetivos da Linha Chave

“O objetivo do Plano da Linha Chave é aprimorar as áreas de agricultura e pecuária revertendo a tendência de deterioração da terra sob ocupação humana. … Ele se baseia na crença de que toda busca da agricultura ou pecuária são em si mesmas meios de melhorar cada vez mais a fertilidade no solo.” P. A. Yeomans em O Desafio da Paisagem escrito 1958.

Nota: Tradução livre feita por Eurico Vianna, PhD, em Abril de 2019 do capítulo The Aims of Keyline (Os Objetivos da Linha Chave) no livro The Challenge of Landscape (O Desafio da Paisagem), escrito por P.A. Yeomans e publicado pela Keyline Publishing em 1958 na Austrália.

Yeomans, P.A. (1958). The Aims of Keyline in The Challenge of Landscape. Keyline Publishing PTY. Australia.

O Plano da Linha Chave é um plano para áreas de produção rural baseado primeiramente na minha própria concepção do que é o solo, como ele se desenvolveu naturalmente e como podemos desenvolvê-lo ainda mais e, em segundo lugar, no clima e na topografia de cada propriedade na qual o plano é aplicado.

Ele se baseia na crença de que toda busca da agricultura ou pecuária são em si mesmas meios de melhorar cada vez mais a fertilidade no solo. As técnicas do Plano da Linha Chave foram desenvolvidas com essa finalidade.

O objetivo do Plano da Linha Chave é aprimorar as áreas de agricultura e pecuária revertendo a tendência de deterioração da terra sob ocupação humana – tornando essas áreas estáveis e permanentes em uma paisagem que se restaura de modo geral. Seu objetivo é melhorar qualquer solo agriculturável à partir do solo mais pobre até os mais ricos para muito além do que se desenvolveria naturalmente em determinada região climática. A evolução do solo na natureza à partir de solos sem vida e rochas pode ter levado períodos de tempo consideráveis. Os seres humanos com tempo limitado felizmente têm muitas maneiras e processos por meio dos quais podem rapidamente melhorar qualquer solo natural.

Todas as técnicas do Plano da Linha Chave são projetadas para melhorar o clima do solo contrapondo o histórico das condições climáticas gerais que afetam e que largamente criaram o solo.

O Plano da Linha Chave foi desenvolvido na Nova Gales do Sul, na Austrália, e seu desenvolvimento provavelmente foi influenciado pelas condições gerais da forma que se aplicam à maioria das nossas terras produtivas. Visto que a Linha Chave se baseia no estudo do clima e da topografia, ela se adequa de forma prática a qualquer tipo de paisagem agriculturável. Suas várias técnicas serão aplicadas em maior escala nos aspectos mais amplos da agricultura nas regiões que abarcam a produção de grãos, ovinos e bovinos na Austrália e em outras terras.

Enquanto a Linha Chave rejeita as abordagens ‘santificadas’  ou predominantemente químicas com fertilizantes artificiais geralmente usadas na agricultura ortodoxa, ela encontra grande valor em alguns ‘artificiais’ de uma abordagem nova ou não-ortodoxa. Muito embora a Linha Chave não seja classificada como agricultura orgânica, ela usa meios naturais de restauração do solo com muitos benefícios.

 Os métodos ortodoxos de melhoria de pastagens não são Linha Chave. A Linha Chave consegue resultados maiores e mais rápidos na restauração de pastagens com ênfase na melhoria do solo, usando e melhorando as pastagens durante o processo.

Ela não segue a abordagem ou usa os métodos de conservação do solo porque a técnica da Linha Chave tem o efeito de melhorar o solo rapidamente, restaurando e prevenindo erosão. Ela preserva e assegura a topografia natural do terreno melhorando o ambiente climático do solo. A erosão do solo então deixa de ser um fator que requer consideração especial.

Geralmente o plano busca conservar no solo tanta água da chuva quanto seja necessária para que o solo possa promover sua própria restauração em cada estágio de desenvolvimento em particular. Se toda a chuva que cai se faz necessária, então toda ela é conservada para ser usada de forma produtiva. Todo excedente do escoamento é armazenado em açudes de vários tipos projetados para usos específicos.

Quando a água escoa além das necessidades de conservação do solo e da capacidade máxima dos açudes, ela segue as linhas de fluxo natural. O fluxo de água que se forma nos talvegues não causa danos aos vales em programa com a Linha Chave.

Quando a água é um fator limitante, o armazenamento é projetado para captar o maior coeficiente de escoamento e não o escoamento anual mínimo como ortodoxamente recomendado.

O Plano da Linha Chave, como muitos outros, promove o plantio de árvores, mas fornece um padrão de planejado para todos os plantios.

De novo, o plano torna os solos mais profundos. Tem sido dito que talvez tenha levado séculos para formar 2,5 centímetros de solo natural. Mas os humanos podem controlar os fatores envolvidos de tal maneira que é possível formar muitos centímetros de solo à partir de rochas decompostas e solos mortos em 3 anos, embora em muitos casos seja possível produzir pastagens nesses solos dentro de um ano.

O Plano da Linha Chave se desenvolve principalmente à partir de uma técnica de planejamento global que se baseia em uma nova concepção de topografia como amparo poderoso para o desenvolvimento agrário. E o que baseia seu planejamento é o padrão derivado do fluxo natural da água. Isso pode ser melhor ilustrado da seguinte maneira: os talvegues de cabeceira macios, de formato arrendados, sejam eles pequenos, de uns poucos acres, ou grandes, com centenas de acres, geralmente tem duas inclinações distintas ao longo da sua linha central; primeiro a inclinação mais aguda que cai à partir da colina ou cumeeira, segundo a inclinação mais suave que geralmente é constante em relação a sua junção com o curso de água abaixo. O ponto de mudança entre esses dois declives – o ponto onde o primeiro declive mais alto e agudo encontra o declive mais suave eu chamei de Ponto Chave do talvegue no meu livro anterior, “O Plano da Linha Chave”.

Uma linha cruzando esse ponto e se estendendo para direita e para esquerda, podendo ser em curva de nível ou com leve caimento dependendo das circunstancias do clima e da topografia que influenciarão o planejamento de cada propriedade, é a Linha Chave do Talvegue (ou do vale na terminologia em inglês, nota do tradutor). Agora, esses dois declives do talvegue são um elemento constante da topografia e o talvegue com seu ambiente imediato é primeiro ou principal a ser considerado para captação de água.

A próxima e maior área de captação é aquela que inclui duas, três ou várias dessas áreas de captação primárias. Dentro dessa segunda área de captação, em uma região de caráter geológico uniforme, os Pontos Chaves de cada talvegue (ou vale) primário se relacionam entre si; eles tem uma relação ascendente em terrenos elevados. Dessa forma, o planejamento geral com a Linha Chave é baseado, primeiramente, nesses elementos geralmente constantes da topografia, depois, na subdivisão geral do terreno que pode ser feita de acordo com essas formas naturais e reveladas pelos vários padrões do fluxo da água.

Informações sobre os cursos entre Maio e Junho

Curso de Agricultura Regenerativa com a Escola de Permacultura – entre os dias 20 a 29 de maio, na Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, Brasil. Esse curso aborda a Tomada de Decisão Holística e Escala de Permanência da Linha Chave para promover a produtividade e a qualidade de vida para a agricultura familiar.

Esse curso aprofunda e retifica conceitos chaves para os que já estudam a permacultura como ciência de desenho ecológico. Também é uma excelente oportunidade para aqueles que querem projetar com segurança uma transição para o campo.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya. 

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Introdução ao Desenho Ecológico para Propriedades Rurais com Eurico Vianna – entre os dias 20 e 23 de Junho em Soracaba, SP. 

Esse curso apresenta os 4 processos ecossistêmicos e a Escala de Permanência da Linha Chave como uma introdução ao desenho regenerativo de propriedades rurais. O conteúdo e formato foi desenvolvido para as as pessoas que querem reconectar com a natureza, empreender com responsabilidade socioambiental ou simplesmente conhecer mais sobre a Escala de Permanência da Linha Chave (EPLC).

Curso de Gerenciamento Holístico em Sorocaba entre os dias 25 e 30 de Junho em Sorocaba, SP. A Fazenda São Benedito está fazendo a transição para agropecuária regenerativa e o curso traz a oportunidade de acompanhar o inicio do planejamento de um sistema baseado no Gerenciamento Holístico. Esse curso é divido em 3 módulos: O curso é divido em 3 módulos:
– Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

Consultoria Aberta com Graeme Hand na Agropecuária Kehrle. Essa consultoria é ideal para as pessoas que já estão envolvidas na pecuária regenerativa ou que já decidiram fazer a transição. A Agropecuária Kehrle é uma propriedade inovadora, que já usa o GH há 5 anos e que prima pela produção do gado criado a pasto, garantindo a saúde aos animais e os cuidados com o meio ambiente. Nessa consultoria, portanto, a troca de conhecimentos com o Graeme será de altíssimo nível e os participantes poderão ver como a abordagem do GH se adequa ao contexto específico de cada família e sua propriedade.

Curso de Gerenciamento Holístico no Santuária Ecológico Fazenda EcoAraguaia entre os dias 7 e 12 de Julho. Esse curso vai acontecer as beiras do Rio Araguaia usando a pecuária na EcoAraguaia como estudo de caso de transição para o Gerenciamento Holístico. A EcoAraguaia é líder na implementação do Sistema Integração Lavoura Pecuária (ILP) e co-fundadora da Associação Brasileira de Produtores de Carne Carbono Neutro (ABCCN).
O curso é divido em 3 módulos:
– Tomada de Decisão Holística,
– Gerenciamento Holístico Financeiro e
– Manejo Holístico de Pastagens.ministrado
E será ministrado por Graeme Hand, educador e consultor australiano com mais de 20 anos de experiência internacional nessa abordagem.

O Caso – Passado, Presente e Futuro – pela Agricultura REGENERATIVA

Todas as civilizações que surgiram e colapsaram antes do surgimento da civilização ocidental e da revolução industrial entraram em colapso praticando uma “agricultura orgânica”. Isso é lógico dado que os combustíveis fósseis ainda não haviam sido encontrados e, portanto, uma agricultura dependente em insumos químicos ainda não era possível. O uso indevido dos recursos naturais foi definitivamente um fator importante no colapso dessas civilizações. E do ponto de vista evolucionário nosso cérebro, hoje, é o mesmo que foi usado por aqueles que cortaram a última árvore na Ilha de Páscoa ou daqueles que transformaram o Crescente Fértil em uma área desertificada.

Meu ponto aqui, relembrando esses fatos, é primeiramente que “o destino das civilizações segue o destino da agricultura”, como explica Allan Savory, ou como colocado pelo presidente estadunidense Roosevelt após as grandes tempestades de poeira que assolaram seu país no anos 30 é que “uma nação que destrói seu solo, é uma nação que destrói a si mesma”. Um outro ponto igualmente importante é que estamos claramente em um desses momentos de virada histórica onde nossa mentalidade extrativista e desarmonizada com Gaia está nos levando a um colapso, mas dessa vez em escala global.

E no Brasil o governo eleito ao invés de usar sabiamente os recursos que ainda nos restam para garantir a soberania nacional e o bem estar da população, resolveu ser subserviente as corporações estrangeiras do petróleo e agronegócio e entregar a fertilidade de nossos solos, a biodiversidade de nossos biomas, e nosso petróleo e minerais para manter os privilégios de uns poucos às contas do futuro de todas as gerações brasileiras.

O que chamamos de agricultura, de um modo geral, pode ser definido como a produção de alimentos e fibras à partir dos solos e águas do planeta. Essa definição abrange também a pesca e a pecuária. Mas o que mais se ‘exporta’ nesse paradigma da agricultura corporativa atual é o solo! Estimativas da FAO e outros pesquisadores indicam que para cada 500kg de alimento produzido por ano, por pessoa no planeta, o agronegócio perde até 20 toneladas de solo pela erosão que seus métodos causam. Também já é sabido e comprovado que o que a agricultura industrial não é nem economicamente viável nem ecologicamente segura. Sem os subsídios energéticos dos combustíveis fósseis, sem os perdões constantes das dívidas e calculando os custos das ‘externalidades’ (a degradação ambiental, social e da saúde) essa indústria já teria sido abandonada há muito tempo.  Mas a agricultura industrial não se baseia em eficiência energética ou econômica.

A agricultura industrial se baseia no uso do petróleo, do marketing (que mente e ilude), da tecnologia e da ‘socialização’ das externalidades para gerar lucro. Isso se dá porque durante o processo de produção, o agronegócio concentra renda, o acesso a terra e aos meios de produção enquanto ‘socializa’ para os governos e a população os custos da degradação ambiental, da quebra do tecido social e do envenenamento das pessoas pelo uso de químicos nocivos. Para se ter uma ideia um coquetel com 27 agrotóxicos foi encontrado em 1 em cada 4 municípios no Brasil. O glifosato, agrotóxico mais usado na agricultura industrial, sabidamente causa câncer. Além disso, muitos cientistas já afirmam também que o glifosato causará autismo em 50% das crianças até 2025.

As corporações petroleiras, o agronegócio e os ambientalistas sabem que já entramos em uma era de escassez energética. Tanto sabem que desde o Acordo de Paris em 2015 as principais corporações petroleiras já gastaram mais de 200 milhões de dólares em marketing de ‘controle de danos’ para confundir a população e evitar que tomemos as devidas providências contra elas.

Precisamos, urgentemente, adotar uma agricultura baseada nas ciências biológicas, baseadas nos princípios da natureza. Mas para isso, como disse acima, não basta adotarmos uma ‘agricultura orgânica’, ou métodos de produção da agroecologia, da permacultura, da agricultura natural ou da agrofloresta. É preciso adotarmos um paradigma de tomada de decisão no qual gerenciamos ao mesmo tempo a terra, as comunidades e a economia. É preciso que os índices econômicos não se baseiem no mito do crescimento infinito, mas sejam baseados na qualidade de vida das pessoas e em uma produção regenerativa, energeticamente eficiente, que sequestra carbono e restaura os solos que usa para alimentar a população.

Kuhikugu, é a maior cidade pré- colombiana já descoberta na região do Xingu na Amazônia.

Em alguns momentos da História da evolução humana, no entanto, nós conseguimos viver em harmonia com o planeta. Alguns povos que habitaram a Amazônia, por exemplo, construíram uma civilização com cerca de 7 milhões de pessoas que ao produzir seu alimento melhoravam o solo que utilizam. Esse solo é chamado Terra Preta de Índio e em vários lugares da Amazônia chega a ter mais de 2 metros de profundidade. Os aborígenes australianos manipulavam os ecossistemas e usavam sistemas florestais, de piscicultura, gramíneas perenes e tubérculos para produção grãos, pães, proteínas e tubérculos há mais de 50.000 anos.

Ilustração do Sistema Ahupua’a.

Os Havaianos criaram um sistema de divisão de terras baseado em micro-bacias e em um manejo ecológico que aprimorava muito a eficiência energética de sua caça e coleta. Esse sistema era chamado Ahupua’a. Os Aztecas criaram as chinampas, um sistema de produção integrado com árvores onde se criavam ilhas de produção suspensas em áreas alagadiças nas quais a interação humana restaurava os nutrientes no ato da produção.

Essas poucas civilizações, que podemos chamar de ‘regenerativas’ porque eram energeticamente eficientes, viviam em harmonia com o ecossistema a qual pertenciam e geravam mais recursos do que utilizavam, tinham algumas coisas em comum. Entre elas a noção de que não dominavam a natureza, mas faziam parte dela, e a ideia de que a terra em que viviam e os recursos que utilizavam eram recebidos das gerações anteriores e emprestados pelas gerações futuras. Outro conceito comum de vários povos indígenas é a noção de que as decisões que tomamos hoje precisam garantir os recursos naturais para 7 gerações futuras. Esse princípio foi incorporado pelo co-originador da Permacultura, David Holmgren.

Infelizmente todas essas civilizações ‘regenerativas’ também tinham outra coisa em comum. Todas elas eram ecologicamente, espiritualmente e emocionalmente mais evoluídas que a civilização ocidental, mas não eram belicamente mais ‘evoluídas’ e, portanto, foram dizimadas durante os processos de expansão da civilização ocidental. Embora sejamos educados para acreditar que o modelo de civilização ocidental é o ápice da evolução humana, a verdade é que, muito provavelmente, esse modelo seja só o ápice bélico, exploratório e conquistador de um dos tantos ciclos civilizatórios que já tivemos. Quando voltarmos a gerenciar a terra holisticamente, junto com a economia e a cultura, quando tivermos o cuidado de deixar para nossas 7 gerações futuras um mundo abundante, com água e ar limpos, com alimentos verdadeiramente nutritivos e produzidos em ecossistemas biodiversos, poderemos chamar toda nossa agricultura, ou o manejo dos solos e águas do planeta para produzir alimentos, fibra e combustíveis, de AGRICULTURA REGENERATIVA.

Referências:

Walter Steebock – Apostila Economia em Sistemas Florestais (2018).

Allan Savory na palestra de abertura da Conferência de Inverno No-till on the Plains em 30 de Janeiro de 2018.

Bruce Pascoe (2014). Dark Emu: Black seeds agriculture or accident?

Nota:
Durante os meses de Maio, Junho e Julho estarei no Brasil com uma agenda de cursos de desenho ecológico, agrofloresta e pecuária regenerativa.

Imersão Agroflorestal na Fazenda Bella – entre os dia 1 d 15 de Junho estarei ministrando essa vivência com o Osmany Segall e o Sérgio Olaya.

A imersão é composta por dois cursos teóricos, duas vivências e duas visitas guiadas (ver link acima) equipando os participantes com o conhecimento e a prática necessários para desenhar, implementar e manejar sistemas agroflorestais. Durante a vivência os participantes terão a chance de desenhar consórcios, plantar, colher e ver a comercialização dos produtos.

Para mais detalhes sobre todos os cursos, datas e links para inscrição visite o link dos Cursos de Impacto Positivo 2019.