Ovinocultura: Como é possível combinar o melhor do desenvolvimento genético com a alta produtividade?

“O ponto de partida para a selecionar para fertilidade está na ovelha. A solução está no Carneiro. A velocidade, em termos de progresso, está no manejo e na nutrição. Todas as premissas anteriores dependem de um critério de seleção capaz de discernir a melhor genética [para o contexto do produtor e sua propriedade].”

Nota: O texto que segue é uma tradução adaptada e contextualizada de um texto publicado por Johann Zietsman em seu grupo Wholistic Ranching (no WhatsApp), feita por mim, Eurico Vianna, PhD. Como Zietsman trabalha com bovinos, as contextualizações necessárias para entender, transferir e aplicar os princípios na ovinocultura, foram feitas com o auxílio do produtor Johan Bezuidenhout, da Fazenda Fleetwood (ver vídeo abaixo).

Eu encontrei o trabalho do Zietsman enquanto pesquisava modelos alternativos, baseados em princípios ecológicos e capazes de aumentar a produtividade e lucratividade da pecuária de pequena escala. Tanto o Johann Zietsman, quanto o Johan Bezuidenhout me atenderam prontamente para auxiliar nessa jornada de desenho do plano de negócio do meu sítio que inclui a pecuária com princípios agroecológicos e do Gerenciamento Holístico como empreendimento base. No Brasil, uma das maiores referências de pecuária de grande escala usando o manejo ultra denso dos animais e os princípios preconizados pelo Zietsman é a Agropecuária Kehrle.

Os carneiros reprodutores precisam ser selecionados a partir das ovelhas mais férteis do rebanho, criadas exclusivamente à pasto, com melhor escore corporal e capazes de parir o primeiro cordeiro entre 12 a 15 meses de idade. Esse grupo de ovelhas é geneticamente mais fértil (tem melhor condição corporal e equilíbrio hormonal) e deve ser a fundação à partir da qual os carneiros são escolhidos.

Ovelha MeatMaster com 12 meses de idade e parto gemelar que vem produzindo consistentemente a cada 8 meses desde então.

Nesse cenário, que é único, não é necessário usar critérios de seleção genética [como testes de DNA e Diferença Esperada de Progenia preconizados pela indústria e que tiram a autonomia do produtor]. A primeira prenhez, o parto e o cordeiro saudáveis e a (quase certeza da) segunda prenhez entre 17 a 20 meses de idade são indicativos suficiente (da fertilidade).

Entretanto não é necessário tornar a situação tão difícil que apenas 10% do rebanho consiga esses resultados. Mesmo com uma taxa de 100% de prenchez é possível identificar as ovelhas mais férteis usando uma seleção que discerne usando parâmetros genéticos como o período entre os partos e período entre o parto e o ciclo estral seguinte. Como parâmetro geral, as ovelhas devem parir a cada 8 meses aproximadamente.

Os carneiros devem ser selecionados à partir dos cordeiros desmamados quando estiverem com 7 meses de idade. Uma cabeça forte, precocidade e traços masculinos acentuados são fundamentais. O peito deve ser profundo e o corpo comprido. Os dentes e a arcada devem ser perfeitos para garantir a boa capacidade à campo. O ‘pacote completo’, ou seja, o corpo forte, mais pesado e melhor preenchido aos 7 meses também é um parâmetro importante. Dentro de cada raça, também é possível correlacionar o peso e o ‘pacote completo’ com a altura do quadril (aos 7 e depois aos 15 meses de idade). Essa correlação, ao invés de ser usada para selecionar animais cada vez maiores (como fazem expositores), é feita para escolher os mais mais pesados e precoces aos 7 meses, como indicativo de melhor conversão de pastagem e de precocidade hormonal (atingirão sua maturidade sexual como reprodutores mais jovens aos 15 meses de idade).

Cordeiro ‘Credmore’ da raça MeatMaster desmamado aos 5 meses e já mostrando características excelentes de precocidade e ‘pacote cheio’ (preenchimento).

Para acelerar o processo de concentração desses genes desejados, os seguintes procedimentos de cruzamento e manejo precisam ser implementados:

  • insemine todas as ovelhas com o carneiro de 15 meses de idade mais fértil (um grande diferencial genético), depois de 17 dias, use o mesmo carneiro (e outros da mesma geração e escolhidos com os mesmo critérios) para monta natural, para garantir a maior taxa de prenhez possível no rebanho.
    • Nota: caso não seja possível usar a inseminação artificial, mantenha uma proporção de um carneiro para cada 50 ovelhas. Use essa proporção para determinar o número de carneiros necessários e escolha os melhores possíveis entre a mesma geração e separe as ovelhas por piquete em lotes de 50 com os carneiros escolhidos. Alternativamente, use os bastões coloridos para determinar qual carneiro cobriu quais ovelhas.
  • a partir de uma perspectiva prática e econômica, forneça a melhor nutrição possível (à pasto + sal mineral). A monta, a cria e a desmama devem acontecer no periodo com melhor nutrição disponível. Isso resultará na melhor fertilidade possível no rebanho, menor intervalo entre as gerações e maior variabilidade genética.
    • Nota: nas regiões mais secas, a suplementação para rumem talvez seja necessária.
Ovelha da raça MeatMaster já prenha do Credmore com menos de 12 meses de idade e exibindo excelentes características de feminilidade, precocisade e escore corporal. (Fazenda Fleetwood).

Após duas estações de monta, é necessário escolher outro carneiro (para coletar semen e fazer as inseminações), junto com outros de seus melhores contemporâneos caso a inseminação não seja possível. E os anteriores podem ser vendidos para outros rebanhos criando renda extra.

Esse tipo de manejo do rebanho liberta o produtor da cultura de que é preciso comprar reprodutores caros de fazendas que vendem genética. Também reverte a lógica de criação de animais seguindo parâmetros da indústria de confinamento com animais criados à base de ração e cada vez maiores para agradar critérios de exposições e permite o desenvolvimento genético voltado para condições específicas de clima, relevo e nutrição (excelente conversão de peso à pasto); o que por sua vez traz mais lucratividade e resiliência para os produtores e suas propriedades.

Aqui o reprodutor Credmore antes do desmame. (Fazenda Fleetwood)

As maiores taxas de endocruzamento, nessa perspectiva, não são um problema. O rebanho é selecionado de forma a eliminar fraquezas, como susceptibilidade a verminoses e partos que precisam de auxílio por exemplo, e reforçar qualidades como excelente condição corporal (exclusivamente à pasto), equilíbrio hormonal (fêmeas com excelentes qualidades femininas e machos com excelentes qualidades masculinas), precocidade, fertilidade e prolificidade (partos gemelares). A alta taxa de variabilidade genética a cada dois anos, dentro dos critérios corretos, se torna um fator contribuinte para a melhor seleção possível.

“É possível combinar o melhor dos dois mundos, desenvolvimento genético com a alta produtividade”.

Johann Zietsman

Referências:

Man, Cattle and Veld, (2014). Johann Zietsman;
– Grupo “Wholistic Ranching” no WhatsApp;
– Comunicação pessoal com Johan Bezuidenhout, gestor e proprietario da Fazenda Fleetwood.

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