As conexões entre a crise alimentar, as corporações do agro, da transgenia e a produção de vacinas com o Dr. Brad Evans

A agricultura industrial não é sobre a produção de alimentos, ela é sobre usar o território e a população para criar uma plataforma de escoamento para os produtos petroquímicss e das mineradoras. Os grandes fundos de investimento que possuem as corporações do agronegócio e da transgenia, são os mesmos que possuem as gigantes tecnológicas e as da indústria farmacêutica. Em um momento histórico no qual essas corporações vem roubando dados da agricultura familiar e propondo ainda mais controle por meio da ‘agricultura de precisão’ (completa desumanização, digitalização e automação da agricultura), devemos nos perguntar quem mais se beneficia dessa fusão das gigantes tecnológicas com as corporações do agronegócio, transgenia e farmacêuticas?

O que artigo que segue é uma tradução livre de um programa do Russel Brand e de um artigo escrito pelo Professor Brad Evans. Filósofo político, crítico teórico e autor especializado no problema da violência, o Dr. Brad Evans já escreveu 18 livros e hoje é titular da disciplina Violência Política e Estética na Universidade de Bath, no Reino Unido. O vídeo original pode ser acessado ao final do texto.

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“Na medida em que bilionários e grandes empresas de tecnologia assumem cada vez mais a agricultura e os alimentos que comemos, perguntamos: estamos sendo transformados em uma colônia de alimentos geneticamente modificados?” (Russel Brand, na reportagem original)

É uma pergunta retórica, obviamente. Como mencionei acima, a agricultura industrial não é sobre a produção de alimentos nutritivos e saudáveis. A arquitetura e a engenharia civil não são sobre a construção de moradias e edificações aconchegantes, funcionais, autônomas e energeticamente eficientes. A indústria farmacêutica não é sobre saúde preventiva e bem estar humanos. E, por fim, o sistema econômico não é sobre criar acesso aos recursos, facilitar transações e distribuir renda. Essas áreas transformaram os territórios e as pessoas em plataformas de escoamento para seus produtos petroquímicos, transgênicos, minerados e farmacêuticos e o sistema econômico e o modelo democrático vigente no ocidente, em mecanismos de concentração de renda e poder.

A gestão dos nossos territórios frente crise alimentar sem precedentes mencionada pelo Dr Brad Evans tem semelhanças fortíssimas com a gestão da pandemia frente ao colapso ecológico que vivemos: como cânceres as corporações (e os governos aparelhados) seguem oferecendo soluções que fagocitam as pessoas e o território para gerar lucro sem nunca resolver, de fato, as causas do problema. Nesse contexto, a raiz do problema é a gestão reducionista do território e dos recursos que visa só lucro e é incapaz de resolver o colapso ecológico, social e econômico que ela mesma causa (as chamadas externalidades econômicas).

O cenário que o Dr Brad Evans tão claramente descreve se relaciona diretamente com a Doutrina do Choque, de Naomi Klein. A Doutrina do Choque, como explica Naomi Klein, é uma tática brutal e recorrente adotada pelas corporações e seu lobby sobre os governos que se aproveita de um acontecimento chocante – uma guerra, um golpe de estado, um ataque terrorista, uma quebra do mercado financeiro ou um desastre natural, para explorar a desorientação da população, suspender a democracia, promover políticas radicais que enriquecem o 1% às custas dos pobres e da classe média. Naomi Klein se debruçou por quatro décadas, desde o golpe militar de Pinochet, apoiado pelos Estados Unidos, no Chile dos anos 1970, até o Furacão Katrina em 2005 e a tática é sempre a mesma. Nesses últimos dois anos de pandemia não foi diferente: tivemos a maior transferência de recursos da história para as mãos de um pequeno grupo de bilionários.

Deixo aqui uma aula sobre a Doutrina do Choque antes de seguir para o texto do Dr. Brad Evans, que embora ateste sobre as eficácia das injeções com terapia gênica, alerta sobre os perigos desse tipo de argumento quando usado pela indústria alimentícia.

“O mundo está nas garras de uma perigosa crise alimentar. Trata-se de mais do que simplesmente cadeias alimentares. Levanta questões fundamentais sobre a dependência alimentar e os próprios tipos de alimentos que estarão disponíveis para nós comermos nas próximas décadas. Em um artigo recente na revista médica Lancet, a pesquisa observou como estamos entrando em um período preocupante no que diz respeito ao acesso a alimentos. Citando o relatório global de 2021 sobre crise alimentar, eles apontam como mais de 160 milhões de pessoas em 43 países ao redor do mundo são afetadas pela escassez de alimentos.”

“Mas este não é apenas um problema restrito aos países mais pobres do mundo. Nos Estados Unidos, de acordo com dados do Departamento de Agricultura, cerca de 13,8 milhões de pessoas, cerca de 10% da população, enfrentaram algum tipo de insegurança alimentar no ano passado. A situação é a mesma no Reino Unido. Como Bee Wilson observou recentemente no Guardian: ‘o Covid trouxe à tona algumas verdades duras sobre o sistema alimentar britânico e o trabalho ruim que ele faz de alimentar a população como um todo. Quando o primeiro bloqueio ocorreu em março de 2020, muitas famílias britânicas em melhor situação puderam continuar comendo como antes, enquanto milhões mergulharam na pobreza alimentar ‘”.

“Bem, parece que as corporações multinacionais de alimentos têm uma solução pronta, o que também revela algumas conexões interessantes com a produção de vacinas.”

“Embora os debates ainda se agravem sobre até que ponto a vacina contra a covid-19 equivale a modificação genética, o que talvez seja menos conhecido é como ela emprestou algumas de suas ideias das estratégias de marketing para alimentos geneticamente modificados ou transgênicos. Além disso, o que marcou uma diferença notável foi como a produção de vacinas foi capaz de contornar vários regulamentos que estavam em vigor, que anteriormente limitavam a disseminação generalizada de alimentos geneticamente modificados. Isso poderia agora ser usado como um catalisador para abrir as comportas, já que os produtores de alimentos exigem o mesmo afrouxamento das regras? O que parece claro é como o sucesso da vacina agora é apresentado por alguns como uma nova maneira de superar as preocupações do público com alimentos transgênicos”.

“Um artigo no Irish Times observou há alguns meses, ‘grupos ambientalistas que se opõem aos organismos geneticamente modificados (OGM) têm sido muito influentes por um tempo considerável e capazes de levantar grandes protestos públicos. Mas o movimento anti-OGM está agora em declínio à medida que a UE e várias organizações ambientais influentes começam a acolher cautelosamente alguns organismos geneticamente modificados. O prego final no caixão anti-OGM provavelmente será o sucesso espetacular da tecnologia genética que acaba de desenvolver várias vacinas altamente eficazes contra a covid 19 no prazo milagrosamente curto de um ano’. O mesmo artigo também aponta como ‘as técnicas de biotecnologia podem ajudar a UE a cumprir as metas de sustentabilidade ambiental’. Para aqueles de nós que estão preocupados com os alimentos que comemos e acreditam nos benefícios das culturas orgânicas, este é um desenvolvimento preocupante.”

“Ao considerar essa questão da dependência alimentar e as tentativas de imposição de alimentos geneticamente modificados, vale olhar para os países já envolvidos na luta. Tomemos aqui o exemplo do México, que é particularmente instrutivo. Os agricultores do país vêm se organizando ativamente contra os alimentos transgênicos há muitos anos e foram essenciais para colocar o assunto na vanguarda da agenda ativista internacional pelo menos desde os protestos em Seattle em 2000. A chave aqui é o milho.”

“A produção de milho no México não é apenas altamente politizada; sua produção vai ao coração das culturas indígenas. Podemos lembrar aqui como uma característica chave do levante zapatista no México em 1994 foi a autonomia e dignidade das culturas alimentares nativas, o que por sua vez levou à criação do que foi chamado de movimento antiglobalização. Mas também tem sido o campo de batalha mais ferozmente combatido no esforço para impor variantes geneticamente modificadas, que literalmente deslocam as culturas nativas com uma variante de milho que coloniza a terra e desloca suas variantes multicoloridas com uma variedade amarela produzida em massa”.

“O México possui atualmente 64 tipos de milho, que são usados ​​em mais de 600 pratos diferentes. No entanto, como Gabriela Galdino observou no Politico, ‘o México está rapidamente se transformando no principal campo de batalha em uma guerra cultural e comercial sobre como o mundo produz seus alimentos’, principalmente em resistência às demandas dos EUA. O que está em jogo aqui é a forma como a produção de alimentos está mirando diretamente nos direitos políticos das pessoas por autonomia. O GM, em suma, agora é como a vacina, propondo ser uma forma de nos salvar de outra catástrofe, pois nos permite ‘alimentar o mundo’.”

“Isso convenientemente ocorre em um momento em que as pessoas vêm fazendo mudanças notáveis ​​nos padrões de consumo de alimentos, exigindo uma produção mais justa e insistindo mais em sua natureza orgânica”.

“Uma das vozes mais famosas sobre a insegurança alimentar continua sendo o ganhado do prêmio Nobel, Amartya Sen. Importante. Para Sen, se as pessoas sofrem de insegurança alimentar dificilmente é devido à escassez de alimentos, mas o que ele chamou de falta de ‘direito’. Em suma, há alimentos saudáveis ​​suficientes disponíveis para alimentar o planeta; o que nos falta são as distribuições políticas e econômicas corretas.”

“Será que nossa solução para esta crise global de alimentos não é engenharia biotecnológica, mas um tipo de engenharia muito mais humana. Um que envolve uma simples redistribuição de renda para que as pessoas possam viver uma vida saudável. Se somos o que comemos, certamente devemos lutar contra os alimentos que nos colonizam?”

A dissonância cognitiva dos filhos do agronegócio e quem realmente alimenta o Brasil

Na segunda-feira (dia 27/09/2021) o jornalista Fábio Pannunzio afirmou no Jornal Despertador, de seu próprio canal TV Democracia, no YouTube, que a permacultura, uma ciência do desenho ecológico, e a produção de alimentos orgânicos gastam três vezes mais terra do que a produção industrial, que tais abordagens não passam de “discurso bonitinho” e que só seriam capazes de alimentar em torno de 30 mil pessoas no planeta. O texto que segue é uma contribuição no sentido de desmentir tais absurdos e nesse intuito traz referências acadêmicas e argumentos apoiando a posição contrária a do jornalista Fábio Pannunzio.

Depois de lamentar os prejuízos trazidos pelas queimadas e apresentar grande parte de suas tendências cognitivas a favor do agronegócio e do uso dos pivôs centrais que hoje gastam em torno de 80% dos recursos hídricos do país em uma reportagem gravada na fazenda de sua mãe, Pannunzio destilou autoritarismo e ignorância ao impedir o colega Eumano Silva de expor sua opinião. Eumano começava a defender modelos alternativos de planejamento rural e agricultura como a Permacultura e os sistemas agroflorestais sucessionais, mas foi impedido de seguir argumentando. Ao pedir desculpas, Fábio disse: “Pode colocar sua opinião, mas vou confrontar você, te aviso, porque seu argumento está errado…” e seguiu:

“A informação técnica é a seguinte: permacultura, produção de orgânicos gasta três vezes mais terra, mais área agricultável do que a produção industrial. Essa é a realidade! Se todo mundo passasse a consumir alimentação orgânica 2/3 da população da Terra passariam fome porque a área agricultável não existe. E outra coisa, o dano ambiental seria gigante porque você precisaria desmatar praticamente toda a Amazônia para produzir a mesma quantidade de comida. Então, tem um discurso muito bonitinho… vegano, orgânico, e o escambal… isso serve para 30 mil pessoas, não serve para 7 bilhões. Essa é a posição correta… e aí não tem discussão porque esses dados são dados da própria ONU. Não tem o que fazer. E com toda essa produção industrial tão mal vista, ainda tem 1 bilhão de pessoas passando fome no planeta” (Fábio Pannunzio no Jornal Despertador, dia 27/09/2021, grifo meu).

As afirmações e atitudes do Fábio Pannunzio escancaram desinformações, mentiras, incoerências e seu viés de confirmação pró-agronegócio. Atitudes que persistiram durante as edições seguintes do programa.

Para além da incoerência de termos o criador da TV Democracia usando de grosserias e autoritarismo para silenciar a opinião de um jornalista que ele mesmo convidou para o programa, temos o uso incorreto das fontes e dos dados compartilhados. Segundo o Fábio, são relatórios da ONU que afirmam que a agricultura orgânica precisaria de mais espaço para produzir alimentos, muito embora ele não tenha compartilhado essas fontes. Fica evidende que o jornalismo do Fábio funciona só até que a matéria não critique o modelo de produção da fazenda da própria mãe, uma incoerência enorme.

À partir desse ponto, fica claro o viés de confirmação pró-agro mesmo que em sua retórica Fábio se posicione como pessoa que se importa com o colapso ecológico que estamos vivendo. Fábio não é capaz de admitir que o modelo de produção de sua família é parte do problema, não é capaz de ouvir um colega sobre as alternativas possíveis. A arrogância, a incapacidade de admitir que outras pessoas chegaram a princípios e práticas mais socialmente justas, ecologicamente regenerativas e economicamente viáveis impede o avanço das mudanças que precisamos realizar urgentemente!

As grosserias do Fábio deixaram claro que a dificuldade dele é ouvir que existem alternativas muito mais viáveis do que o modelo do agronegócio incorporado na fazenda da própria mãe. E Pannunzio é apenas um entre tantos que reconhecem que precisamos mudar, mas não se o custo da mudança questionar o modelo econômico atual e a viabilidade da familia com a agricultura industrial. É muita dissonância cognitiva!

O agronegócio não produz alimento, produz commodities para especulação no mercado financeiro às custas de muito subsídio hídrico, energético e econômico. Esse modelo, que transforma a agricultura em plataforma de escoamento para petroquímicos, também está intimamente ligado com a indústria dos ultraprocessados que causa a obesidade, diabetes tipo 2 e várias doenças crônicas que associadas com o coronavírus tem causado praticamente 80% das mortes durante a pandemia. E neste contexto, as declarações de Pannunzio, além de incoerentes e mal-educadas, são um desserviço! Mais ainda, são classistas porque defendem que o que temos disponível para a população pobre é o alimento industrial.

A agricultura industrial é uma das maiores causadoras dos processos de desertificação e mudanças climáticas que degradam severamente a natureza. Entretanto ela também está entre os setores que mais vão sofrer as consequências desses processos degradantes.

Dois esclarecimentos se fazem necessários. A Permacultura é uma ciência do desenho ecológico que combina estratégias energeticamente eficientes e socialmente justas para o manejo ecológico da água e dos efluentes, da produção alimentar (usando várias práticas e a integração animal), para a produção energética, para a construção de moradias e para a elaboração de políticas públicas e sistemas econômicos. A produção orgânica, na minha análise, já foi cooptada pelo modelo econômico vigente e portanto, não serve mais como direcionadora do movimento regenerativo. Nesse sentido trago aqui referências e argumentos pela agroecologia e a agrofloresta sucessional. Vamos aos fatos, cientificamente referenciados, para desfazer o desserviço do Fábio e sua linha editorial pró-agro.

“Qual modelo é mais necessário para a sociedade brasileira?”. O gráfico pode ser encontrado em uma publicação da Escola Milton Santos de Agroecologia de outubro de 2013.

A origem dos movimentos de conservação do solo no mundo todo vem das tempestades de poeira da década de 30 do século passado. Desde então, os cientistas sabem que a origem dessas tempestades é o hábito de cultivar (arar) o solo e produzir alimentos em sistemas monoculturais com solo exposto, ou seja, o modelo industrial de produção.

Sobre este modelo industrial de produção, a economista Maria-Helena Semedo, Diretora Adjunta da Organização de Alimentação e Agricultura (FAO) da ONU, declarou no forum do Dia Mundial do Solo em 2014 que se prosseguíssemos com o modelo industrial de agricultura teriamos apenas 60 anos restantes de colheitas até o colapso completo do solo nas áreas agricultáveis.

Miguel Altieri, doutor em agronomia, cientista prolífico e professor da Universidade da California explica que:

O desafio imediato que a agricultura sofre é como aumentar a produção alimentar para dar conta da população que cresce enquanto regeneramos os ecossistemas que já degradamos até o momento presente. Essa virada precisa ser feita usando a mesma quantidade de terra, menos petróleo, menos água e menos nitrogênio em um cenário regido pelo aquecimento global, conturbações sociais e crise financeira. A situação atual de falta de acesso ao alimento produzido, perda de diversidade biológica, erosão do solo superior e as doenças causadas pelo uso de agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados, por exemplo, mostram claramente que esse desafio não pode ser vencido pelo modelo de produção do agronegócio (Altieri, 2015)”.

Durante o programa de segunda-feira e nos subsequentes, Fábio constantemente argumenta à favor do modelo industrial por sua eficiência e uso da tecnologia inovadora. A dissonância cognitiva do Fábio faz ele separar o modelo de produção da agricultura industrial do modelo econômico, como se o primeiro não fosse consequência dos valores do segundo. Fábio diz que o agricultor produz, mas o sistema não é competente na entrega, mas ele não qualifica esse ‘agricultor’ e segue empurrando a culpa para outro setor, afinal, a fazenda da mãe não pode ser parte do problema. Mas Altieri, de novo, explica melhor o que Fábio faz questão de não ver:

“A razão pela qual a fome no mundo continua crescendo não é porque não produzimos alimento o suficiente. O problema é o acesso à comida e a desigualdade social e econômica. Nos Estados Unidos e na Europa cada pessoa joga fora em média 115kg de comida por ano, enquanto aproximadamente 2/3 da população mundial em países em desenvolvimento ainda vive na pobreza, ganha menos de $3 dólares por dia e não consegue comprar alimento suficiente para sobreviver. A razão verdadeira porque temos fome no mundo é porque a agricultura é controlada por corporações. E essas corporações controlam o que (e como) os produtores devem produzir e o que os consumidores podem consumir (Altieri, 2015)”.

Os argumentos de Fábio pela eficiência também não se sustentam quando vemos os dados das pesquisas de Altieri sobre a produção primária global. Segundo Altieri, além da produção de alimento pelo agronegócio só alimentar 30% da população mundial, ela usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (2015). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO, a erosão causada pelo agronegócio perde em torno de 12 a 15 toneladas de solo por hectare por ano! Ou seja, o modelo do agronegócio, produz mais solo erodido que aliementos por hectare ano.

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, em comparação com o agronegócio, produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). O que é mais importante, os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, por exemplo, são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios. Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Outra informação importante é que enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015).

No Brasil temos dados ainda mais convincentes sobre métodos de produção da agricultura familiar e os que levam em conta a ecologia florestal. O Dr. Walter Steenbock, autor de vários outros livros e artigos científicos, compila uma série de dados reveladores em sua última obra, A Arte de Guardar o Sol. Dados do Atlas do Agronegócio citados no livro revelam que: 453 milhões de hectares do Brasil estão em uso privado e 45% das propriedades com mais de 1000 hectares compoem apenas 1% dos imóveis rurais. O livro de Steenbock traz ainda, por meio de dados do Censo Agropecuário de 2006 que: a agricultura familiar, com apenas de 10 a 15% do crédito rural e apenas 24% da área produtiva total, produz 70% dos alimentos e emprega 70% da mão de obra (Steenbock, 2021).

O que os dados sobre a agroecologia e as agroflorestas revelam no Brasil e no mundo é que o agronegócio não é sustentável nas dimensões social, ecológica e nem econômica. Ter 20% do território de uma fazenda do agronegócio, em reservas legais (normalmente onde as máquinas não conseguem operar) não compensa uma agricultura industrial que cria desemprego no campo, desmata, desperdiça e contamina a água e erode o solo para implementar monoculturas (frequentemente trasngênicas) em 80% do território que ocupa.

Precisamos ter coragem de admitir que nosso modelo econômico atual e a produção industrial de alimentos são responsáveis pelo colapso ecológico que estamos vivendo. Precisamos ter coragem para parar de usar desculpas como ‘a transição leva tempo’, ‘isso é maniqueismo’ ou ‘não podemos ser tão radicais’! Até porque essa retórica só favorece um grupo minúsculo de privilegiados enquanto lança toda a vida no planeta para extinção em massa.

Sobre a velocidade com que conseguimos mudar quando necessário, dois episódios ilustram bem o que é culturalmente e tecnologicamente possível. Ao final da Segunda Guerra Mundial os americanos já haviam implantado 20 milhões de Hortas da Vitória (Victory Gardens) que supriam 40% de todas as hortaliças e tubérculos que alimentavam o país à época. Isso levou menos de 5 anos! Durante a Guerra Fria, depois de saber que os soviéticos haviam enviado uma espaçonave não tripulada para a Lua, os americanos levaram apenas 10 anos para levar uma espaçonave tripulada! David Suzuki, o ecologista e autor canadense, narra o esforço científico e econômico coletivo necessário para conseguir esse feito para nos mostrar que com a mentalidade certa somos capazes, sim, de grandes mudanças rapidamente. Como temos meros 5% de chance de reverter as mudanças climáticas em tempo de evitar uma hecatombe, ele reforça construir essa mentalidade é uma questão de vida ou morte, literalmente.

É com essa mentalidade e velocidade que precisamos implementar a reforma agrária agroecológica, alcançar a soberania alimentar que garante a alimentação saudável para todos e a biorregionalização das cadeias de produção e consumo. Do contrário, estaremos assinando a cumplicidade com a extinção em massa.

Todas as áreas produtivas devem passar por essas transições rapidamente até que sejam 100% regenerativas no social (trazendo justiça e dignidade para as pessoas do campo), no ecológico (produzindo com princípios e práticas que melhoram os processos ecossistêmicos) e no econômico (trazendo equanimidade para todas as pessoas). Como diz Muhammad Yunus, prêmio Nobel de Economia, se quisermos escapar a extinção em massa que estamos causando, precisamos de Um Mundo com 3 Zeros – zero emissões de gases de efeito estufa, zero desemprego com todos sendo empreendedores em suas vocações e zero concentração de renda.

Nota 1: É importante dizer que o plantio direto em palhada, apresentado por Pannunzio como uma prática “sustentável”, é evidentemente melhor que o plantio com solo exposto, mas não é capaz de substituir a biodiversidade e os serviços ecológicos prestados pela vegetação nativa do cerrado ou das florestas Atlânticas ou Amazônicas.

Nota 2: Não recomendo assistirem tamanha grosseria e autoritarismo vindos de um jornalista que se diz democrata, mas deixo o link para o programa junto com as referências para quem quiser conferir.

Nota 3: A lista de referências com economistas, agronomos, cientistas climáticos, ecologistas é muito mais extensa do que o que apresento aqui. Na verdade, o que a ciência idonea traz é que o modelo industrial de produção de alimentos é um risco para a humanidade e o planeta. A única ‘ciência’ que discorda dessa premissa é a produzida pelas corporações dos petroquímicos, transgênicos e maquinário industrial, mas para o escopo de uma resposta informativa e transparente aos desserviços de Fábio Pannunzio os links ao longo do texto, as referências citadas e as deixadas como sugestão de leitura abaixo representam os argumentos centrais com bastante propriedade.

Referencias:

ALTIERI, M. A. (2015). Agroecology: Who will feed us in a planet in crisis. Paper presented at the Earth Talk. https://www.youtube.com/watch?v=LKfiabQ-j0E

ALTIERI, M. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3 ed. São Paulo: Expressão Popular; Rio de Janeiro: AS-PTA, 2012. 400 p.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Agropecuário 2006: agricultura familiar, primeiros resultados. Brasil, Grandes Regiões e Unidades da Federação. Rio de Janeiro: IBGE; 2006

FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. State of knowledge of soil biodiversity: satus, challenges and potentialities. Rome, FAO, 2020

GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000

Jornal Despertador, TV Democracia, dia 27/09/2021 – https://www.youtube.com/watch?v=KLcCbMhlidU&t=3814s

SANTOS, M.; GLASS, V. (orgs). Atlas do agronegócio: fatos e números sobre as corporações que controlam o que comemos. Rio de Janeiro: Fundação Heinrich Böll, 2018

STEENBOCK, W. A arte de guardar o sol: padrões da natureza na reconexão entre florestas, cultivos e gentes. Rio de Janeiro, Bambual Editora, 2021.

Soil Erosion: the greatest challenge for sustainable soil management – http://www.fao.org/3/ca4395en/ca4395en.pdf

TITTONELL, P. (2014). Feeding the world with Agroecology Paper presented at the TEDx Ede https://www.youtube.com/watch?v=iKtrwdsvIko

A Doutrina do Choque, a pandemia e a pergunta: “Agro pode ser regenerativo?”

Enquanto a fome atinge 19 milhões de brasileiros durante a pandemia, quase a metade das famílias têm algum grau de dificuldade para se alimentar e cerca de 27 milhões de pessoas sobrevivem em média com R$246 reais por mês o Brasil criou 238 bilionários durante a mesma pandemia. Juntos eles têm quase o PIB do Chile.

Não coincidentemente, a maioria desses negócios são bancos, fundos de investimentos e conglomerados de supermercados, ou seja, o tipo de negócio que tira a autonomia da população. E nós seguimos cegos sem uma revolta popular em massa diante desse absurdo. Com certeza e folga poderíamos usar estes recursos para amparar os que passam fome e dificuldade nesse momento tão sofrido da nossa história.

Comento hoje alguns links para documentários, reportagens e aulas que foram compartilhadas em minhas redes desde a semana passada.

O Brasil chega a 238 bilionários em 2020; fortuna total é quase o PIB do Chile – Matéria do caderno de economia do Portal UOL.

Para ajudar a entender como essa apatia diante de crimes tão graves contra a humanidade são possíveis, eu trago o trabalho da ativista e autora Naomi Klein, “A Doutrina do Choque”. O documentário foi compartilhado pela Márcia Silva (@simbioticabioaliemntos), ativista do movimento agroecológico no RS que participa do grupo de Agricultura Regenerativa do telegram.
Nota: Quem quiser participar é só pedir o link por mensagem direta, não disponibilizamos o link para evitar os ataques de robôs).

Naomi traça a genealogia do “Capitalismo de Desastre” desde os experimentos conduzidos pelo psiquiatra Ewen Cameron em parceria com CIA. Esses estudos mostravam como as pessoas ficavam mais suscetíveis a sugestões de comportamentos e confissões após receber eletrochoques e/ou passar por longos períodos de privação sensorial trancafiados sem poder ver o mundo externo, sem cores, sem sentir sabores, texturas e afagos.

Esse link foi compartilhado no grupo alertando para o fato de que a pandemia, embora real e desastrosamente assassina mediante a suposta incompetência de Bolsonaro, pode estar sendo usada como uma Doutrina de Choque para que a população aceite sem questionar as reformas legais, fiscais e privatistas da agenda neoliberal desse governo.

E eu digo suposta incompetência porque quando analisamos a Doutrina do Choque e como ela foi usada por Milton Friedman – o economista guru da escola de Chicago, onde Paulo Guedes se formou – fica claro que o neoliberalismo sempre usou o choque, a desgraça, para fazer com que a população aceitasse reformas que só privilegiam a elite.

Exatamente como estamos agora, em meio à pandemia, aceitamos inertes que 238 bilionários tenham a riqueza de um país inteiro, enquanto 19 milhões de brasileiros passam fome durante a pandemia e 27 milhões de pessoas sobrevivam em média com 246 reais por mês.

A desgraça brasileira atual está à serviço de uma elite sociopata, classista e subserviente a poderes corporativos estrangeiros.

Leiam o livro e assistam o filme. A maior hipocrisia esclarecida é que em nenhum lugar onde a Doutrina do Choque foi utilizada para implementar a economia neoliberal as condições de vida da população melhoraram. Via de regra, a elite mundial força a mão dos grandes impérios, usa de violência, desinformação e controle para concentrar renda, poder e território. É o livre comércio desta elita, nunca foi do bem estar comum.

Tanto o livro quanto o filme trazem vários exemplos dessa hipocrisia desumana indo desde o primeiro laboratório de Friedman, a América Latina, passando pela Inglaterra, Polônia, China, União Soviética e Ásia, até chegar na Guerra do Iraque.

E o agronegócio nesse contexto atual, como fica?

Enquanto a pandemia e as mais de 4 mil mortes diárias são usadas como Doutrina do Choque, o governo desmonta as instituições ambientais, favorecendo o agronegócio, a mineração e a construção civil, que nada tem a ver com produção de alimento, infraestrutura ou moradia. Estas são só fachadas para as maiores plataformas de escoamento de petroquímicos, concentração de renda e poder nas mãos de pouquíssimas corporações transnacionais.

O IBGE, claro! Está sendo desmontado também, porque sem dados e análises sérias sobre como está a população, fica mais fácil governar com a Doutrina do Choque, notícias falsas e propaganda – o Correio Brasiliense traz uma reportagem sobre este tema .

E aí vem a propaganda. Enquanto todas as instituições que poderiam frear os crimes ambientais do agronegócio e documentar sua concentração de renda e terras são desmontadas, as notícias de que o agronegócio pode ser regenerativo aparecem.

O Estado de São Paulo publicou uma reportagem intitulada “Agricultura Regenerativa”. Nela Roberto Rodrigues conta uma estória da Carochinha que os avanços nos últimos 35 anos foram em melhoramento genético (leia-se transgenia), adubação (leia-se escoamento de produtos petroquímicos e mineração) e mecanização (leia-se desemprego no campo e êxodo rural forçados), mas que agora “o mundo rural avalia ações ligadas à biologia”.

Roberto Rodrigues diz que a Agricultura Regenerativa pode ser vista como um agente de paz, mas não aborda em nenhum momento a definição do termo que existe para além da regeneração ambiental, a regeneração sociocultural – que demandaria uma reforma agrária e modos de produção que aplaquem a cultura e qualidade de vida das pessoas no campo – e a regeneração econômica que demanda que os recursos gerados circulem dentro da biorregião onde foram produzidos.

O Globo Rural deste domingo, dia 11/04, traz na reportagem sobre a “Agricultura Regenerativa” a produção de grãos de milho e soja orgânicos em milhares de hectares como um avanço. Em sua versão escrita um dos sócios da empreza informa um quadro com apenas 60 funcionários. A reportagem não explica nem contextualiza como vivem esses funcionários ou vácuo humano causado por sistemas de produção que podem ocupar milhares de hectares com um número tão pequeno de pessoas.

A reportagem também não revela que o que na verdade se desenrola é o mercado de commodities orgânicas. E, que como todo mercado de commodities, esse mercado “orgânico” tem muito mais a ver com concentração de terras, poder, renda e capital especulativo que com produção de alimentos saudáveis regenerando as dimensões socioculturais e econômicas das biorregiões onde esses grãos são produzidos.

A agrofloresta, que em área comparativa com os milhares de hectares dedicados a produção de grãos, é uma parte quase inexistente, é usada como garota propaganda. E por fim, um branco super privilegiado é apresentado como herói, escondendo assim o protagonismo de mulheres, de indígenas, de povos tradicionais, do MST e tantos outros que protagonizam o movimento realmente regenerativo que é a AGROECOLOGIA.

Uma das missões mais importantes que temos hoje é protagonizar a definição, a prática e o exemplo da Agricultura Regenerativa. A definição e as métricas e indicadores desse termo precisam ser amplamente difundidos por nós que protagonizamos a agroecologia, a empatia, a economia biorregional e o êxodo urbano pelo movimento de transição.

Para ser verdadeiramente regenerativo o agro precisa distribuir terras, renda, ter planos de carreira com salários dignos para seus funcionários. Precisa cuidar para que as pessoas que vivem no campo, que são plurais e vão muito além da lógica de produção, tenham tempo livre, qualidade de vida, segurança e soberania sobre seus territórios e alimentos. Precisa regenerar a economia em sua biorregião e não produzir para o mercado financeiro.

O dia que a produção do agro for regenerativa nesses sentidos, talvez ela seja verdadeiramente regenerativa.

Até lá, o que o agro faz ao usar esse termo é usurpar o protagonismo das pessoas do campo, dos movimentos sociais e ativistas. Da mesma maneira que já usurpou e distoreceu os termos “orgânico” e “sustentável”.

Aqui no site eu já escrevi sobre este tema no artigo O que é um produto orgânico? Podemos confiar no rótulo? e sobre Como funciona o controle de danos do Agronegócio explicando como esses conglomerados transnacionais usurpam e distorcem os termos.

Para fechar eu trago para vocês a aula Regeneração de Solos Degradados com Processos Biológicos, do agricultor e ativista Pedro Meza (Instagram @pedro.meza.33).

Um testemunho de como a soberania alimentar, a saúde e a possibilidade de expressarmos nossas vocações em sua plenitude está diretamente ligada ao acesso de um pedaço de chão onde o lar vai do solo à mesa onde comemos. É por isso que digo que só escaparemos essa extinção em massa em Santuários de Sanidade Mental e Ecológica.

Pedro é um artesão, um guardião e um druida do solo! Buscando soluções que trazem autonomia e eficiência para o produtor, Pedro experimenta com vários métodos de regeneração de solos degradados. Tinturas, microorganismos eficientes, chás de composto e outros inoculantes de vida vão para o solo e chegam para a mesa da família com muito carinho, com muita competência e um senso estético de um renascentista da regeneração planetária.

Viver como o Pedro vive, em contato direto com sua vocação, com cheiros, texturas, sabores, cores é um remédio para a privação de sentidos praticada pela doutrina do choque durante a pandemia.

Não temos um conjunto de soluções que não passe necessariamente por uma gestão ecológica, social e economicamente regenerativas, pela reforma agrária e o esvaziamento das cidades, pela agroecologia e pela soberania alimentar!

Se vocês têm se beneficiado pelo meu conteúdo e reflexões, eu peço que se inscrevam no canal do youtube, na lista de emails aqui no site, na plataforma de interação sobre planejamento rural e agricultura regenerativa e que compartilhem o conteúdo com suas recomendações.

Tenho também um link para o financiamento coletivo da produção deste conteúdo no Apoia.se . Nesse sentido, o apoio de vocês é super importante porque me ajuda a construir a base material que preciso para continuar produzindo conteúdo de pensamento crítico, ecológico e sistêmico para compartilhar.

Por fim, quem se interessar pela transição, pelo planejamento rural e por se conectar com uma rede de produtores e ativistas que estamos tecendo, meu próximo curso começa dia 27/04. Vem com a gente fazer parte das soluções! Clique aqui para fazer sua inscrição!

O Agronegócio e a Fome no Brasil

Em uma mistura de dor, ira, nojo e desespero tenho lido, assistido e escutado notícias sobre a fome desde domingo, dia 04/04/21.

Eu compartilho abaixo a curadoria das notícias, mas faço aqui um apelo no sentido de desenvolvermos um pensamento crítico, ecológico e sistêmico! Não é nem uma questão de espectro ideológico à direita ou à esquerda, é uma questão física – de entendermos termodinâmica e ecologia!

De fato, como diz a Rita Von Hunty, “não existe solução individual para problemas sociais”!

De fato, a reforma agrária e a agroecologia são emergências importantíssimas para a construção de um futuro em que escapemos a extinção em massa!

Mas também não encontraremos soluções tecnológicas, reducionistas para problemas complexos nos âmbitos sociais, ambientais e econômicos em que vivemos.

Pouquíssimas notícias abordam o papel central que uma produção primária regenerativa pode ter em captar mais luz solar, em regenerar o ciclo hidrológico, em ciclar mais nutrientes e cobrir o solo e em favorecer a biodiversidade.

E como esses processos ecológicos são indissociáveis, como sem eles não há como sustentarmos a vida, o agronegócio não pode sustentar nenhuma economia.

Pouquíssimas notícias veem ou comentam a inseparabilidade e a magnitude da complexidade que se forma quando pensamos em sociedades e economias nocivas incrustadas em ecossistemas moribundos.

Nenhuma notícia que comentou a fome, criticou a densidade populacional das cidades, a poluição ali gerada, a insanidade ali vivida e as injustiças ali perpetradas pelas elites e sua ideologia. Nenhum reporter lembra Lutzemberger avisando lá na década de 8o que “As cidades são ecossistemas artificiais.

Na verdade a lógica de praticamente todas as notícias continua sendo a pergunta “como o campo vai alimentar as cidades?”. Perpetuando assim a monetização do acesso ao alimento e a subjugação de tudo que há no campo à logica destrutiva das cidades.

Só voltando a ocupar o campo com uma cultura baseada em uma viabilidade econômica atrelada a regeneração da biocapacidade local, baseada na qualidade de vida para produtoras, na soberania para indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, teremos qualquer chance contra a extinção em massa.

Não é só “agroecologia ou colapso” como colocam os cientistas recomendados pela Rita no @temperodrag .

Precisamos de uma gestão verdadeiramente justa, regenerativa e viável que nos auxilie no planejamento do #êxodourbano e das várias transições que precisamos fazer para evitar a extinção em massa.

No rumo que estamos, porque já vivemos um colapso ecológico e econômico, continuaremos matando primeiro as mulheres negras, indígenas, pretos, pobres pardos e campesinos largados à míngua no campo, como mostram as estatísticas nas notícias que comento abaixo.

Precisamos viver em lugares com batatas, inhames e mandioca estocadas em um solo vivo. Com frutas, castanhas e madeira estocadas em sistemas agroflorestais saudáveis. Com carnes de peixe, frango, boi, porco, cordeiros, bodes, coelhos, preás, etc. vivas em volta da casa ou em latas com banha, em varais secando em cima do fogão à lenha ou preservadas no sal. Com queijos, coalhadas e conservas nas prateleiras. Com uma horta colorida e cheirosa na porta da cozinha.

Como diz a Ana Primavesi em seu livro Manejo Agroecológico do solo, até 1970 existia pobreza no Brasil, mas não tínhamos famintos.

A concentração de terra, poder e renda faz parte de um plano que só beneficia a elite. Mas é um plano estúpido, porque ao depletar a própria base de recursos que apoia a vida no planeta essa elite assassina grande parte da população primeiro, mas depois se suicida também.

Como diz o Allan Savory – Em última análise, a única riqueza que pode embasar qualquer comunidade, economia ou nação é derivada do processo fotossintético – plantas saudáveis crescendo em solos se regenerando.

Segue a curadoria comentada para vocês!

Podcast Café da Manhã – Porque o Brasil passa Fomehttps://open.spotify.com/episode/5sHfj8k4jBRH1nDsKJcgaR?si=XY-gkB7ATaSec47xSa8UHQ&utm_source=whatsapp&nd=1

A frase que me marcou mais nesse podcast enviado pelo ativista e permacultor @Marco.Siqueira foi “O acesso ao alimento é monetizado”!

Mas ouvir gera dor, ira, nojo e desespero.

“A fome atingiu 19 milhões de brasileiros durante a crise de covid-19, e quase a metade das famílias têm algum grau de dificuldade para se alimentar. E isso não leva em conta o fim do auxílio emergencial, porque esses dados foram coletados nos últimos 3 meses do ano passado.

Com bolsa família e outros programas sociais a população pobre teve acesso a alimentos e o Brasil saiu do mapa da fome. Com a crise econômica e social intensificada por volta de 2016 a fome voltou com força. E como o acesso urbano ao alimento sempre foi monetizado a insegurança alimentar é pior nos centros urbanos.

Hoje, cerca de 27 milhões de pessoas sobrevivem em média com 246 reais por mês.

A reportagem denuncia o desmonte do PNAE, Programa nacional de Alimentação Escolar, um dos maiores do mundo. Dentro do PNAE, o PAA, Programa de Aquisição de Alimentos, prevê que a compra de 30% desses alimentos precisariam ser de agricultura familiar. Há um ano esse programa também vem sendo desmontado pelo governo atual e sua parceria com a bancada ruralista.

Um depoimento de uma educadora popular negra de Recife revela como o plano eugenista desse governo não deixa opção digna para desempregados nas periferias.

Gostaria de soltar o Paulo Guedes com R$250 no subúrbio de Recife por um mês e ver se ele sobrevive com o que recomenda para os outros

Tempero Drag (@temperodrag) – Agroecologia e Agricultura Familiar

“Não existe solução individual para problemas sociais” é a frase que marca nesse vídeo.

A Rita Von Hunty abre o primeiro de Abril, dia da mentira, com notícias absurdamente graves que ela gostaria que não fossem realidade, mas são. Vale muito a pena conferir! Em qualquer país de primeiro mundo europeu como a França, Espanha ou Alemãnha ou mesmo Chile ou Argentina na América Latina, por exemplo, as pessoas estariam nas ruas paralisando e mudando o país com as próprias mãos.

Depois ela contextualiza uma discussão muito interessante sobre “Emergência, importância e um futuro” e ela defende, citando alguns autores e o movimento ecossocialista, que entramos em uma época em que ou adotamos o Eco-socialismo ou entramos em extinção. Muito embora já estejamos no antropoceno – a era geológica marcada pela sexta maior extinção em massa.

Nesse sentido, ela argumenta, que agroecologia e a reforma agrária são medidas urgentes e importantes que podem construir um futuro viável para a população.

Ela ressalta muito bem o papel negativo do agronegócio na história brasileira impedindo, desde 1500 a reforma agrária.

Acho que do vídeo da Rita vale ressaltar os seguintes dados:

O Brasil usa 500 mil toneladas de agrotóxicos todos os anos. 

Isso soma um gasto de 35 bilhões de Reais! Ou vendo de outra forma, o Brasil sozinho usa 20% de todos os agrotóxicos produzidos no mundo.

Nesse sentido, eu vejo como os objetivos sustentáveis da ONU são ridículos! Um deles é diminuir pela metade o uso de agrotóxicos em 10 anos. Mataremos só a metade das pessoas com câncer. Poluiremos só a metade das águas… e enquanto a lógica econômica for a dominante, matar e poluir menos desde que mantenhamos a economia será válida. Quando na verdade, deveríamos enxergarmos e sentirmos a insanidade que é usar agrotóxicos em qualquer quantia uma vez que sentenciam à morte toda a vida do planeta.

Ela alerta ainda que em função dessa concentração de renda, poder e terras, o agronegócio brasileiro é o que mais mata ativistas ambientais no mundo!

Ela deixa vários links úteis para que a gente possa agir apoiando grupos e projetos já em andamento tanto no campo como na cidade.

Os alertas de Allan Savory (@asavory2018) sobre a falta de pensamento ecológico sistêmico.

O Allan compartilhou um artigo do Washington Post sobre como as emissões de CO2 chegaram a um nível crítico já quase dobrando os níveis pré-industriais.

Segundo Allan a maioria dos jornais são responsáveis pela nossa morosidade no combate às mudanças climáticas porque ficam repetindo crenças como papagaios sem nunca questionar ou avaliar criticamente relatórios e notícias.

A matéria aponta a produção de energia elétrica, os transportes e a indústria como os setores que mais poluem, mas não questionam a desertificação global e os solos destruídos pela agricultura. Assim como não questionam as gigantes queimadas anuais em todo planeta, também ligadas à agricultura.

Segundo ele, quando queimamos um hectare de pastagens emitimos mais poluentes mais danosos que a emissão de 6 mil carros. Só no continente africano ele aponta que queimamos mais de 1 bilhão de hectares. No Brasil são 11,700,000 (onze milhões e 700 mil hectares) todo ano.

Allan explica que a mídia continua repetindo relatórios sobre os riscos da emissão de metano pela pecuária sem nunca avaliar que até o advento da agricultura e pecuária industriais, durante milhões de anos os grandes herbívoros selvagens e domésticos nunca foram um problema.

Deixo aqui os links para o artigo no Washington Post e os comentários do Allan no Facebook:

https://www.washingtonpost.com/weather/2021/04/05/atmospheric-co2-concentration-record/?fbclid=IwAR1cQQAgE6LZqfhShwdblONN0ENnnC13zaugHAwsHbxuoq5P4ValJ3DIDdU

https://www.facebook.com/allan.savory

Nesse sentido, da discussão climática, o companheiro Dr. Sérgio Loyola, que toca comigo a página do podcast Impacto Positivo no FaceBook, compartilhou um artigo da DW, portal de notícias alemão, perguntando a uma dezena de especialistas, de setores indo desde entomologia, oceanografia e climatologia até pesquisa do permafrost, o que mais lhes tira o sono quando o assunto é clima.

Surpresa? Não! Segundo a maioria dos cientistas a maior incógnita é o ser humano. Uma das cientístas, a Ama Klutse do Gana lança a pergunta: “O que você pode fazer, enquanto indivíduo, para evitar o impacto da mudança climática?” E segue dizendo que  “São necessárias políticas governamentais no sentido da resiliência urbana, construir para a comunidade. Aí precisamos daquela ação global.”

https://www.dw.com/pt-br/o-que-tira-o-sono-dos-especialistas-em-clima/a-57112714?fbclid=IwAR1YcDjV7vy_rC1EfSlS0CoUrHOtPDVUidJv1M9T_M6O5eakkjk3FEtCFAc

Hoje, quarta-feira dia 07/04/21 vou fazer uma interação ao vivo pelo YouTube e Instragram para compartilhar e comentar essas notícias.

Peço a todos que compartilhem o conteúdo tanto do Youtube quanto do Instagram facilitando a circulação destas reflexões.

Como funciona o controle de danos do agronegócio

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões! Só em isenção para as corporações que vendem agrotóxicos o Brasil deixa de arrecadar anualmente 10 bilhões em impostos. “Esse pacote de isenções, revelado por um esforço de pesquisa da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e pelos pesquisadores da Fiocruz e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro passou a ser chamado “bolsa-agrotóxico“!

Mas isso é só no Brasil e só em isenções fiscais. No mundo as 10 maiores empresas que produzem agrotóxicos lucram 39.62 bilhões por ano com a agricultura da morte.

O agronegócio diz que é preciso subsidiar a indústria do veneno porque sem ela não seria possível produzir alimentos acessíveis. Mentira! O agronegócio produz mais comódites em grãos e produtos transgênicos que alimento. Na verdade sairia muito mais barato taxar apropriadamente essa indústria da morte e subsidiar a produção de alimentos saudáveis para a população por meio da agricultura familiar, que já produz em torno de 70% do alimento usando apenas 20% das terras aráveis e 30% da água usada na agricultura.

Um estudo publicado na revista Saúde Pública revela que para cada US$ 1 gasto com a compra de agrotóxicos no Paraná, são gastos U$$ 1,28 no SUS com tratamento de intoxicações agudas — aquelas que ocorrem imediatamente após a aplicação.

Agravando ainda mais os custos que essas empresas empurram para a sociedade, estudos científicos sérios apontam que os casos crônicos de doenças como o câncer causadas pelo uso de agrotóxicos no Brasil são subnotificados. A realidade é que para cada caso notificado existem 50 que passam despercebidos ou são deliberadamente escondidos por essa indústria bilionária (PIRES, D.; CALDAS, E.; RECENA, M.C., 2005)! Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Em 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos o que dificulta muito a continuação das pesquisas.

Esses e outros dados alarmantes estão disponíveis no livro Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Européia, da Dra Larissa Bombardi, uma adaptação da tese de pós doutoramento da autora publicada pela USP.

Mas existem também os custos ambientais, que também são empurrados para a sociedade por essas corporações dos agroquímicos. O Fórum Econômico mundial estima que a pandemia atual custará entre 8.1 a  15.8 TRILHÕES de dólares para a população mundial e quase a totalidade da ciência publicada indica que quanto maior as taxas de desmatamento, quanto mais centralizada a produção, maior o risco de novas pandemias.

Ilustração mostrando como o desmatramento aumenta as chances de termos novas pandemias

Essas corporações bilionárias investem milhões anualmente em propaganda para impedir a disseminação de conhecimento sobre os custos reais de suas ações na saúde, na sociedade e no meio ambiente.

Essa estratégia de marketing é chamada ‘controle de danos’. Nesse momento, a estratégia do governo Bolsonaro no Brasil, por exemplo, é relativizar e questionar os estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, não com pesquisas de igual rigor científico, mas com campanhas propagando falsas informações.

O ‘controle de danos’ visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública dessas empresas de agroquímicos, e consequentemente aos seus lucros. Isso porque as consequências genocidas do uso desses produtos está se tornando uma unanimidade científica que tem informado a população em geral.

O Brasil permite 5000 vezes mais glifosato na água potável que países desenvolvidos – em Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Só no Brasil, essa “bolsa-agrotóxico” inclui investimentos públicos milionários em gigantes transnacionais do setor agroquímico. Um levantamento feito pela Repórter Brasil e a Agência Pública mostra que, nos últimos 14 anos, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) emprestou R$ 358,3 milhões a empresas agroquímicas (com juros subsidiados pelo governo) e a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), agência do governo que financia inovação em empresas, transferiu R$ 390 milhões a grandes produtores de pesticidas para pesquisa e inovação. Esses são os valores que bancam a pseudociência em muitas das faculdades de agronomia, engenharia florestal, zootecnia e veterinária no Brasil.

Essa é a estratégia usada pelo agronegócio no Brasil. Vídeos, artigos e memes tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando o impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária no Brasil.

Dentro da estratégia de ‘controle de danos’ essa abordagem é chamada de re-enquadramento. Ela consiste na mudança sutil do foco, do enquadramento, tirando do centro do debate a questão dos malefícios causados por esse modelo industrial de produção e fazendo com que as pessoas pensem a discutir, por exemplo, que o Brasil está atrasado em relação a outros países supostamente mais desenvolvidos e que ainda é o país com maior área de florestas em pé.

Ratos alimentados com milho transgênico e água com glifosato, Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia.

Entretanto, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar e que devastação nenhuma é aceitável. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas enquanto concentra dinheiro, território e poder.

Os setores simpatizantes desse governo, os acadêmicos ‘colonizados’ e os departamentos de marketing dessas corporações seguem estágios dentro da estratégia de ‘controle de danos’.

Primeiro, ignoram os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizam e descrevem as pesquisas e a agricultura regenerativa de forma imprecisa. Em último caso conduzem pesquisas e comparações falsas e difamam pessoas e instituições com opinião contrária para, finalmente, desacreditar as alternativas socialmente, ecologicamente e economicamente viáveis. (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

A contra-inteligência é uma das práticas comuns no “controle de danos”. Ela consiste em inundar os meios de comunicação com desinformação pintando como polêmico ou controverso o fato já comprovado pela ciência de que os agroquímicos causam câncer e outras doenças crônicas graves e que a agricultura industrial é uma das maiores causas do Antropoceno, a sexta maior extinção em massa na história da vida no planeta. Isso, simplesmente porque o consenso científico vai contra o imperativo de lucro de umas poucas corporações internacionais.

A verdade é que a única maneira de alimentar a população mundial sem causar devastação ambiental, doenças crônicas degenerativas e o êxodo rural é com a agricultura familiar agroecológica. São os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, na grande maioria mulheres, que produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial.

E elas fazem isso usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014).

A verdade econômica também é muito clara! Sem os subsídios fiscais, os perdões anuais de dívidas bilionárias e somando o custo da destruição ambiental e da saúde humana à produção agroindustrial, nenhuma dessas corporações se sustenta economica ou ecologicamente.

A única maneira de garantirmos um futuro com água e ar limpos e alimentos verdadeiramente nutritivos para as próximas gerações é gerindo nossos recursos de maneira socialmente justa, ecologicamente restauradora e economicamente viável e isso só a agricultura familiar agroecológica pode fazer.

Alimentos Transgênicos: O que você precisa saber e o que você pode fazer

O Dr. Zack Bush tem feito comparações entre a saúde do meio ambiente e a saúde humana. Ele argumenta que assim como um sistema de produção de alimentos saudável precisa de bactérias, fungos para as plantas possam ser saudáveis e nutritivas, nossa flora intestinal também precisa das bactérias e fungos para promover a saúde do corpo como um todo. Embasado em pesquisas científicas já publicadas em jornais especializados o Dr. Zack Bush vem liderando um movimento pela adoção da agricultura regenerativa nos Estados Unidos. Segundo ele o uso do glifosato tem relação direta com doenças como o câncer, mal de Parkinson, Alzheimer, autismo e intestino poroso. No artigo abaixo ele explica a correlação e compartilha o que pode ser feito para reverter esse quadro sombrio.

Nota do tradutor: O artigo que segue foi publicado originalmente em inglês na newsletter ZackBushMD.com e posteriormente no site do Instituto Rodale, portanto é uma publicação voltada para o público leigo, não científico. A versão em português é uma tradução livre feita por Eurico Vianna.

Todas as partes em negrito constam no artigo original. Eu acrescentei notas de rodapé para contextualizar ou explicar termos mais científicos. Também acrescentei comentários onde entendi que valia à pena contextualizar as diferenças no uso do glifosato no Brasil em comparação com outros países. 

Ao final do texto podem ser encontrados 3 artigos publicados em jornais especializados abordando os efeitos nocivos do glifosato para saúde humana. Os artigos foram publicados pelo Dr. Zack Bush e sua equipe de pesquisadores 


No decorrer dos anos eu tive muitas experiências com pacientes que me levaram a questionar a forma com a qual a medicina ocidental aborda doenças e tratamentos. Na maioria dos casos o objetivo se tornou gerenciar as doenças ao invés de criar as condições ideias para a saúde.

Meus questionamentos me levaram a descobrir estatísticas desconfortavelmente estarrecedoras. À partir dos anos 90 algo alarmante começou a acontecer nos Estados Unidos.

Doenças – no que pareciam órgãos completamente diferentes se tornaram epidêmicas quase simultaneamente.

  • A demência aumentou nas mulheres.
  • O Mal de Parkinson aumentou nos homens.
  • Doenças autoimunes atingiram níveis nunca vistos.
  • Hoje uma em cada duas pessoas serão diagnosticadas com câncer antes de morrer.
  • Uma em cada 36 crianças são diagnosticadas com Autismo comparado com uma em cada 5.000 nos anos 1970

Por que tantas doenças, em partes tão distintas do corpo, estão aumentando em ritmo tão acelerado? Qual a relação entre elas?

A inflamação crônica é o fator que conecta tudo.

E a inflamação crônica é a raiz de todas as doenças.

Por definição inflamação é, na verdade, uma resposta biológica normal a uma lesão. É a reação do corpo a um dano causado ao tecido ou célula por um patógeno nocivo ou outro estímulo qualquer.

Nosso intestino tem uma membrana muito fina que protege suas células de compostos e bactérias que causam inflamação.

Se essa membrana se torna permeável nosso sistema imunológico inteiro sente os efeitos e nós entramos em um processo inflamatório.

Nós sabemos que nossa dieta certamente tem um papel na saúde intestinal, mas infelizmente nós não podemos simplesmente abandonar os doces, começar a comer verduras e legumes e esperar que nossa saúde dê uma reviravolta completa. Isso pode ajudar, mas como eu descobri, isso é só uma peça do quebra-cabeças.

Eu tenho me concentrado em saúde holística e alimentos ricos em nutrientes para curar doenças por anos na Clínica M. Mas inicialmente as estatísticas não foram tão boas quanto eu esperava.

Cerca de 30% dos meus pacientes tiveram uma virada de cura completa e miraculosa depois de adotar mudanças alimentares. Outros 30% dos meus pacientes tiveram alguma melhora. Mas surpreendentemente 40% deles não teve melhora alguma ou pioraram depois de implementar planos com foco na saúde.

Então eu perguntei: “Se a causa das doenças é a inflamação, o que está levando nosso intestino a ser tão afetado e os nossos corpos a ficar tão inflamados? Se o problema não é reduzir o açúcar e comer mais legumes e verduras, então qual é?!”.

Para responder essa pergunta nós precisamos primeiro entender parte da história da origem de nossos alimentos e das áreas de produção rural em nossos países.

Depois da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos acabaram com um excesso de petróleo para os quais eles não tinham uso mais. Eles descobriram que petróleo podia ser usado como fertilizante químico e passaram a comercializá-lo como tal.

Pela primeira vez na história produtores rurais ignoraram boas práticas agriculturais desenvolvidas pela sabedoria ancestral. Eles pararam de descansar o solo e pararam de praticar a rotação de plantios. Eles esqueceram das duras lições das Tempestades de Areia dos anos 1930.

Produtores rurais se convenceram que adubar o plantio com fertilizantes químicos economizava tempo, aumentava a produtividade e produzia plantas mais saudáveis e verdes.

As plantas ficaram mais verdes, mas não ficaram mais saudáveis. Elas estavam agora fracas e deficientes de nutrientes fundamentais. De fato, um tomate produzido hoje não tem quase nenhum licopeno[1] se comparado com um produzido em 1950.

Plantas fracas são mais suscetíveis a doenças e pragas então a solução passou a ser usar mais químicos, dessa vez na forma de pesticidas (que em essência são antibióticos) para o solo e ignorar que bem abaixo da superfície a biologia entrava em colapso.

Era, e ainda é, uma versão ambiental da maneira exata com a qual tratamos doenças em humanos hoje em dia.

O pesticida comercial mais amplamente usado é herbicida à base de glifosato chamado Roundup. Hoje o uso do Roundup é tão excessivo que, de maneira geral, se tornou impossível evitar seus efeitos. De fato, 99.99% do Roundup usado nunca atinge uma erva daninha, ao invés disso, mais que tudo, ele encontrado no escoamento e acaba contaminando a água que bebemos e o ar que respiramos. No sul dos Estados Unidos 75% do ar e da chuva estão contaminados com glifosato.

Nota do tradutor: A exposição da população brasileira aos agrotóxicos é gravíssima. Segundo Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o brasileiro médio consome 5.2 litros de veneno por ano em sua comida. O agronegócio no Brasil faz uso de 504 agrotóxicos, dos quais 30% são proibidos na União Européia. Desde 2008 o Brasil é pais que mais usa agrotóxicos no mundo. O uso do glifosato no Brasil varia entre 5 e 9 kg por hectare, enquanto na União Europeia é limitado a 2kg por hectare.

Enquanto na União Europeia a quantidade máxima do herbicida glifosato que pode ser encontrada na água é de 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite 5 mil vezes mais.

O livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia, escrito por Larissa Bombardi e publicado em 2017, revela que 8 brasileiros são contaminados por dia, segundo dados oficiais conservadores. Uma pesquisa da Fiocruz, no entanto, estima que para cada caso notificado, 50 casos não são notificados. Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos.

Mas a situação é ainda mais grave. Nos Estados Unidos começam a surgir pesquisas comprovando a correlação do aumento de doenças com o uso de glifosato nas lavouras. Entre as doenças causadas pelo glifosato estão o cancer, Mal de Parkinson, Alzheimer, autismo, doença celíaca, intestino poroso, inflamações crônicas, etc. Enquanto isso no Brasil, desde 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos, o que dificulta estudar os casos de intoxicação direta ou indireta por esses agentes químicos.

Mesmo antes de dar uma mordida no alimento você está sendo agredido com um antibiótico toda vez que inspira.

Então como, mais especificamente, esse agente químico prolífico afeta nossa saúde? Agentes químicos à base de glifosato aumentam a permeabilidade da membrana intestinal. Isso significa que os efeitos colaterais do Roundup são lesões diretas à própria estrutura de proteínas que mantém nosso intestino inteiro como órgão. E todas as macro-membranas no seu corpo são mantidas estruturalmente pelas mesmas tight junctions (estruturas formadas por proteínas que mantém a integridade física e funcional das membranas celulares) que o intestino tem.

Nosso ambiente nos transformou em peneiras furadas e os mesmo vasos sanguíneos em nosso corpo que supostamente deveriam carregar as respostas imunológicas ou buscar nutrientes também estão vazando e afetando a Barreira Hematoencefálica[2] (BHE) levando a uma abundância de desordens neurológicas como Mal de Parkinson, Alzheimer e Autismo.

Quando respiramos, bebemos, comemos ou tomamos chuva, nós estamos sendo sujeitos a antibióticos que estão matando as bactérias saudáveis que precisamos para prosperar. A capacidade natural que temos de curar a nós mesmos está sendo arrancada porque nosso bioma foi obliterado pelo glifosato.

Nós criamos uma guerra tanto no nosso meio ambiente externo como no interno. Então como concertamos essa realidade sombria? Por onde começamos?

Uma notícia boa é que a Monsanto (a multinacional que distribui o Roundup) deixou vazar uma estatística encorajadora. Se 16% da comida consumida nos Estados Unidos fosse orgânica a indústria de fertilizantes químicos perderia sua estabilidade financeira.

Apenas 16%. A verdade é que se parássemos de usar o Roundup amanhã, ainda levaria 50 anos para que os níveis tóxicos baixassem. Mas existem bactérias e fungos no solo que conseguem digerir o glifosato. Nosso planeta, assim como nossos corpos, tem uma capacidade natural que curar a si mesmo. Se nós permitirmos.

Nós precisamos começar a fazer as coisas de um modo diferente.

Seguindo as taxas atuais de declínio da saúde, no ano de 2035, uma em cada 3 crianças serão diagnosticadas com autismo. Apenas essa estatística já é suficiente para enviar o país para um colapso financeiro. Uma mudança precisa acontecer e pode acontecer.

Nós os consumidores somos a solução.

Então quais são as medidas que eu recomendo que tomemos para ajudar a mudar as coisas para nossa própria saúde e para o futuro da sociedade?

Mudanças de Macro Ecossistemas

Respire em tantos ambientes diferentes quanto seja possível. Isso significa sair de casa. Deixar seu gramado imaculado. Subir uma montanha. Sentar ao lado de uma cachoeira. Ler debaixo de uma árvore musguenta. Vá ao um pântano. Entre em tantos ecossistemas quanto seja possível para você e simplesmente respire eles por algumas horas. Mudar seu ambiente é uma das maneiras mais simples de repovoar seu micro-bioma (a rejuvenescer a sua saúde mental).

Coma comidas fermentadas

Antes do advento da refrigeração nós usávamos a fermentação como método de preservação de alimentos. Como nós perdemos esse necessidade, nós também perdemos seus benefícios. Alimentos fermentados contém bactérias que reforçam o sistema imunológico e você só precisa comer algumas garfadas de chucrute caseiro para obter a dose diária necessária.

Compre alimentos orgânicos

Essa medida é para melhorar sua saúde, é claro, mas é também para melhorar nosso futuro. Lembre-se: se apenas 16% da população consumir alimentos orgânicos a Monsanto faliria. Alimentos orgânicos geralmente são mais caros, mas se todos nós encontrássemos maneiras de nos sacrificar agora, o preço dos alimentos naturais baixaria dramaticamente assim que os pesticidas químicos parassem de ser usados.

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Faça com que as pessoas comecem a pensar e conversar sobre esses assuntos e os vários equívocos que o cercam. Assista a última entrevista feita com Rich Roll (em inglês) e compartilhe com amigos, família e produtores rurais na sua área.

Nota do tradutor: No Brasil, para os que não dominam o idioma inglês, vale compartilhar essa tradução, o artigo assim como o artigo O agro esconde, o agro mente, o agro mata, assim como o livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia (2017), escrito por Larissa Bombardi.

A esperança humana é contagiosa e, se apenas alguns de nós nos tornarmos mais conscientes de nós mesmos, de nosso ambiente e de nossas comunidades, isso causa uma reação em cadeia.

A mudança pode acontecer rápido. E precisa ser assim. Faça o que você pode, onde você pode e com o que você tiver.

O Dr. Zach Bush, é um dos poucos médicos estadunidenses especializado em 3 áreas: medicina interna, endocrinologia e metabolismo e internação e cuidados paliativos. Aprenda mais sobre o trabalho inovativo do Dr. Zack Bush nos sites:  ZachBushMD.com, IntrinsicHealthSeries.com, e FarmersFootprint.us.


Publicações científicas sobre os efeitos nocivos do glifosato para saúde humana (em inglês):

 – Gildea J, Roberts D, Bush ZM (as Senior/corresponding author). Protective Effects of Lignite Extract Supplement on Intestinal Barrier Function in Glyphosate-mediated Tight Junction Injury. [Self-Funded Original Research] (Under Review – BioMed Central – Public Health).

– Gildea J, Roberts D, Bush ZM (as Senior/corresponding author). Gliadin and glyphosate independently, and in combination, induce tight junction injury, and epithelial membrane leak in small bowel and colon epithelial membrane. [Self-Funded Original Research] (Under Review J Gastroenterology).

– Gildea J, Roberts D, Bush ZM (as Senior/corresponding author). Protection against Gluten-mediated Tight Junction Injury with a Novel Lignite Extract Supplement. [Self-Funded Original Research] J Nutr Food Sci 2016, 6:5

O currículo do Dr. Zack Bush, assim como uma lista mais completa de seu trabalho e pesquisa podem ser encontradas em inglês nesse link.


Notas de rodapé:

[1]Licopeno uma substância carotenoide que dá a cor avermelhada ao tomate, melancia, goiaba, entre outros alimentos. É um antioxidante que, quando absorvido pelo organismo, ajuda a impedir e reparar os danos às células causados pelos radicais livres.

[2]A Barreira hematoencefálica (BHE) é uma estrutura de permeabilidade altamente seletiva que protege o Sistema Nervoso Central (SNC) de substâncias potencialmente neurotóxicas presentes no sangue e sendo essencial para a função metabólica normal do cérebro. É composta de células endoteliais estreitamente unidas, astrócitos, pericitos e diversas proteinas.

O agro esconde, o agro mente, o agro mata!

A questão do uso dos agrotóxicos no Brasil não é polêmica, é econômica e gira na casa dos bilhões  de Reais. A relativização e o questionamento dos estudos científicos que apontam o impacto negativo do agronegócio no meio ambiente e na saúde, fazem parte de uma estratégia de marketing chamada ‘controle de danos’.

O “controle de danos” visa mitigar danos causados à credibilidade, reputação ou imagem pública de uma empresa causados por uma ação ou declaração duvidosa ou má fé no exercício de suas funções. E é exatamente essa estratégia que agronegócio usa no Brasil e no mundo. Novas pesquisas interdisciplinares tem revelado o impacto negativo do modelo de produção agricultural e pecuarista do agronegócio tanto para o meio ambiente, como para a saúde pública. Consequentemente o agronegócio tem produzido vídeos, artigos e memes, que tem circulado a internet e as mídias sociais, relativizando seu impacto ambiental negativo e a gravidade da intoxicação direta e indireta causada pelo uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nas lavouras e pecuária.

Umas das propriedades de P.A. Yeomans, projetadas com a Escala de Permanência da Linha Chave. O manejo da água nessas propriedades garante resiliência contra secas e queimadas e água para produção de alimentos durante todo ano.

Pesquisadores da agroecologia como Pablo Tittonell, Stephen R. GliessmannMiguel Altieri e abordagens do desenho regenerativo como a permacultura, a Escala de Permanência da Linha Chave e o Gerenciamento Holístico tem mostrado que é possível produzir mais alimentos sem o uso de herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos. Essas áreas de pesquisa, desenho e movimentos sociais vão além, eles mostram que o modelo de produção da agricultura familiar produz alimentos mais nutritivos, geram mais empregos, trazem soberania alimentar e qualidade de vida para os envolvidos e conseguem fazer tudo isso regenerando os ecossistemas nos quais se baseiam.

Para termos uma ideia, o agronegócio produz apenas 30% do alimento para população mundial usando de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis. A agricultura familiar, por outro lado, produz de 50 a 75% do alimento da população mundial usando apenas de 25 a 30% das terras aráveis, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados em toda a agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). Em muitos casos a agricultura familiar chega a ser 20 vezes mais energeticamente eficiente do que o agronegócio. Além de de produzir Alguns pequenos produtores rurais grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015). Para uma comparação mais detalhada entre o agronegócio e a agricultura familiar veja o artigo Os Pequenos Produtores Rurais Contra o Agronegócio.

Antes (1963) e depois (2003) de uma propriedade manejada dentro dos preceitos do Gerenciamento Holístico no México.

Todos esses dados e pesquisas mostram que o modelo de produção do agronegócio está definivamente ultrapassado do ponto de vista social e ambiental. Resta a questão econômica. Segundo estimativas da CNA (Conferação deAgricultura e Pecuária no Brasil) a agricultura e o agronegócio contribuíram com 23.5% dos R$6,6 trilhões do PIB (Produto Interno Bruto) do país em 2017. Todo esse lucro não leva em conta as chamadas externalidades, ou seja, os custos da devastação ambiental, do êxodo rural e dos problemas de saúde causados pelo uso dos agrotóxicos. A distribuição dessa renda no Brasil e o que vai para o estrangeiro também é outro fato que sempre fica fora das estatísticas apresentadas; outra tática de marketing de comunicação dessas corporações.

Tendo em vista que todo esse conhecimento trás uma péssima reputação para o agronegócio, as estratégias de “controle de danos” pela indústria, pelos setores simpatizantes do governo e pelos acadêmicos ‘colonizados’ são as de sempre. Primeiro, ignorar os dados e pesquisas contrários ao agronegócio enquanto for possível. Depois ridicularizar e descrever as pesquisas e os meios de produção alternativos de forma imprecisa, conduzir pesquisas e comparações falsas para, finalmente, desacreditar as alternativas (Mulligan, M. e  Hill, S. em Ecological pioneers: A social history of Australian ecological thought and action. 2001).

Meme do MBL com informações e comparações fora de contexto e fontes imprecisas. Exemplo clássico de marketing a favor das grandes corporações.

Grande parte do material de marketing e propaganda do agronegócio que tem vindo à tona usa meias verdades, linguagem científica e até mesmo cita publicações que não foram revisadas por especialistas ou que tiveram times inteiros de pesquisadores comprados como forma de “controle de dano”. Também é muito comum a técnica de “enquadramento” de editorial da mídia corporativa. Um exemplo clássico é um dos vídeos que tem circulado a internet onde uma apresentadora com ares de jornalista imparcial faz comparações da área usada para a agricultura industrial no Brasil e em outros países. As comparações, assim como a linguagem do vídeo, leva a audiência a pensar que em relação a outros países o Brasil deveria estar usando ainda mais área para desenvolver o agronegócio. De maneira sutil o enquadramento muda, tira de questão os malefícios desse modo de produção e faz a audiência pensar que o Brasil está atrasado em relação a outros países industrializados. Na verdade, o que está em questão é que toda a abordagem da agricultura e pecuária industrial está ultrapassada em qualquer lugar. Em todos os países onde é utilizada ela degrada o meio ambiente e a saúde das pessoas.

Um meme usando fatos verdadeiros, porém fora de contexto, sobre a água para mostrar como as campanhas de “controle de danos” funcionam.

A mesma prática foi usada em um meme do MBL, movimento bancado pelos think-tanks da ultra-direita e por partidos neoliberais como o MDB e o PSDB. No meme 5 “fatos” sobre os alimentos orgânicos são apresentados. Nomes de organizações internacionais são usadas para validar os “fatos”, mas nenhuma delas é utilizada de forma que as informações possam ser verificadas. É uma estratégia de contra-inteligência do “controle de danos” que consiste em inundar os meios de comunicação com meias-verdades pintando como polêmico ou controverso um assunto que a ciência séria já comprovou, mas que os resultados não são favoráveis para as corporações.

O documentário O Mundo Segundo a Monsanto, da cineasta francesa Marie-Monique Robin já denunciava as práticas de “controle de danos”, marketing e coação dessa gigante do agronegócio desde 2008. Mais recentemente outros documentos e mensagens eletrônicas da empresa vieram à público revelando a empresa já sabia que seu principal produto químico, o glifosato, é altamente cancerígeno. Essas práticas, no entanto, são largamente praticadas entre as corporações multinacionais do agronegócio.

A cerca da gravidade dos problemas trazidos trazidos pelo agronegócio, a ONU já emitiu um relatório dizendo que precisamos entregar a produção de alimentos para os pequenos produtores antes que seja tarde demais.

Os resultados do relatório em muitos aspectos parecem repetir os resultados do relatório emitido pelas Nações Unidas em 2010 (link para relatório original em inglês). O relatório anterior basicamente informava que a melhor maneira para ‘alimentarmos a população mundial’ é produção orgânica de pequena escala e não a monocultura e o uso OGM.

De acordo com o novo relatório das Nações Unidas precisamos de mudanças drásticas em nossa alimentação, agricultura e comércio. E essas mudanças devem ser em direção aos pequenos produtores rurais e a um sistema de abastecimento alimentar local.

Precisamos, portanto, usar de muito pensamento crítico ao assistir vídeos ou ler artigos que defendam o agronegócio, os alimentos geneticamente modificados e o uso de herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos. De um modo geral, ao analizarmos notícias, artigos e vídeos que defendam o agronegócio, devemos pensar e buscar fontes confiáveis para sabermos se é ecologicamente seguro, se é socialmente justo (e aqui se inclui as questões de saúde) e, por fim, se o lucro gerado é bem distribuido e fortalece a economia das regiões onde se dá a produção.

Abaixo eu contextualizo algumas áreas severamente impactadas pelo agronegócio e suas práticas e compartilho ainda mais fontes de pesquisas que comprovam o quão nocivo esses produtos podem ser para a saúde dos humanos e do planeta.

Impacto na saúde

Nós últimos anos várias pesquisas de mestrado, doutorado, livros e artigos científicos foram publicadas e revisadas por especialistas, revelando a ligação de alimentos geneticamente modificados, herbicidas, pesticidas e fertilizantes químicos com doenças como câncer, Alzheimer, Parkinson, asma e diabetes. No Brasil, os documentários O Veneno Está na Mesa (2011) e O Veneno Está na Mesa 2 (2014) de Sílvio Tendler, o livro Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia (2017), de Larissa Bombardi e movimentos como a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida são boas referências para reflexão e comparação com os materiais publicados pelo agronegócio e mídia corporativa porque citam fontes sérias e trabalhos que foram revisados por especialistas ou avaliados por bancas. São essas referências que revelam por meio de pesquisas sérias que o Brasil está entre os maiores usuários de agrotóxicos no mundo.

A exposição da população brasileira a esses venenos é gravíssima. Segundo Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, o brasileiro médio consome 5.2 litros de veneno por ano em sua comida. O agronegócio no Brasil faz uso de 504 agrotóxicos, dos quais 30% são proibidos na União Européia. Desde 2008 o Brasil é pais que mais usa agrotóxicos no mundo. O uso do glifosato, agrotóxico comprovadamente cancerígeno, no Brasil varia entre 5 e 9 kg por hectare, enquanto na União Europeia é limitado a 2kg por hectare. Outro problema grave é que o uso desses agentes químicos acaba contaminando os lençóis freáticos e por conseguinte a população por meio da água potável. Enquanto na União Europeia a quantidade máxima do herbicida glifosato que pode ser encontrada na água é de 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite 5 mil vezes mais.

O trabalho da Larissa Bombardi revela que 8 brasileiros são contaminados por dia, segundo dados oficiais conservadores. Uma pesquisa da Fiocruz, no entanto, estima que para cada caso notificado, 50 casos não são notificados. Isso implica que entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxicos. Desde 2015 o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos, o que dificulta estudar os casos de intoxicação direta ou indireta por esses agentes químicos.

Sobre a questão do impacto dos alimentos transgênicos em nossa saúde, o livro Roleta Genética, de Jeffrey Smith publicado em 2009, ainda é uma das melhores referências. Nele, Smith revela documentos com informações pouco – ou não divulgadas – sobre testes de segurança de alimentos transgênicos que mostram claramente que não podemos confiar nessas grandes corporações para produzir nosso alimento.

Perda da Biodiversidade

A questão da perda da biodiversidade pelo uso de sementes transgênicas e pelo cartel criado pelas grandes multinacionais do agronegócio traz riscos enormes à segurança alimentar para a população de todo o planeta. John Tomanio produziu um infográfico para a National Geographic mostrando que entre 1903 e 1983 a industrialização da agricultura nos Estados Unidos causou uma perda de 93% das variedades de sementes. A tendência em todos os lugares onde a agricultura é industrializada é a mesma; de perda de biodiversidade e consequentemente da segurança alimentar. O aumento da temperatura média do planeta e os eventos climáticos extremos como enchentes, enxurradas, secas e ciclones agravam ainda mais essa questão da segurança alimentar uma vez que as monoculturas industrializadas são muito pouco resistentes a essas variações.

A perda da biodiversidade pelo modelo de produção do agronegócio, entretanto, vai além da questão do monopólio das sementes. O uso de pesticidas na agricultura e nas lavouras geneticamente modificadas tem causado a morte em massa de abelhas e outros polinizadores. O avanço do desmatamento tanto da Amazônia e do Cerrado brasileiros, dois dos biomas mais biodiversos do planeta, também é causado em grande parte pelo agronegócio. O desmatamento, por sua vez, traz a extinção de várias espécies que perdem seu habitat natural.

Esgotamento de Recursos

Como mencionei acima, o agronegócio usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura para produzir apenas 30% do alimento (Altieri, 2015).

A produção e distribuição de alimentos industrializados (o agronegócio) é totalmente dependente do petróleo. São os combustíveis fósseis que abastecem os tratores que aram, plantam e colhem os cultivos. Os adubos químicos, pesticidas e herbicidas são todos derivados de petróleo. E também são os combustíveis fósseis que mantém os padrões de mobilidade global (o trânsito internacional de produtos e pessoas). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a erosão causada pelo agronegócio chega a perder até 20 toneladas de solo por ano para produzir 500 quilos de alimento por pessoa. E segundo dados da ONU, até 2025 em torno de 50% da população mundial será impactada pela escassez de água.

Esse é outro grande problema do modelo industrial de agricultura e pecuária, ele esgota os próprios recursos que precisa no decorrer de sua produção se tornando cada mais caro e inviável.

Os Pequenos Produtores Rurais contra o Agronegócio

O desafio imediato que a agricultura sofre é como aumentar a produção alimentar para dar conta da população que cresce enquanto regeneramos os ecossistemas que já degradamos até o momento presente. Essa virada precisa ser feita usando a mesma quantidade de terra, menos petróleo, menos água e menos nitrogênio em um cenário regido pelo aquecimento global, conturbações sociais e crise financeira. A situação atual de falta de acesso ao alimento produzido, perda de diversidade biológica, erosão do solo superior e as doenças causadas pelo uso de agrotóxicos e alimentos geneticamente modificados, por exemplo, mostram claramente que esse desafio não pode ser vencido pelo modelo de produção do agronegócio (Altieri, 2015).

A razão pela qual a fome no mundo continua crescendo não é porque não produzimos alimento o suficiente. O problema é o acesso à comida e a desigualdade social e econômica. Nos Estados Unidos e na Europa cada pessoa joga fora em média 115kg de comida por ano, enquanto aproximadamente 2/3 da população mundial em países em desenvolvimento ainda vive na pobreza, ganha menos de $3 dólares por dia e não consegue comprar alimento suficiente para sobreviver. A razão verdadeira porque temos fome no mundo é porque a agricultura é controlada por corporações. E essas corporações controlam o que (e como) os produtores devem produzir e o que os consumidores podem consumir (Altieri, 2015).

Além da produção de alimento pelo agronegócio só alimentar 30% da população mundial, ela usa de 70 a 80% das terras aráveis, 70% da água e 80% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015). Agravando ainda mais a situação, segundo dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), a erosão causada pelo agronegócio perde em média 20 toneladas de solo por ano para produzir 500 quilos de alimento por pessoa.

Por essas razões, precisamos adotar sistemas de produção alimentar que não dependam de combustíveis fósseis e que sejam regenerativos. Ou seja, precisamos restaurar o meio ambiente enquanto produzimos alimentos. Sistemas de produção agroecológicos, por exemplo, são resilientes ao aquecimento global e são multifuncionais, provendo serviços ecológicos, sociais, culturais e econômicos. A agroecologia também pode se tornar a base para a criação de sistemas de produção e distribuição locais de alimentos (Altieri, 2015).

Os pequenos produtores rurais ao redor do mundo, em comparação com o agronegócio, produzem de 50 a 75% da comida que alimenta a população mundial usando apenas de 25 a 30% da terra arável, 30% da água e 20% dos combustíveis fósseis usados na agricultura (Altieri, 2015; Tittonell, 2014). O que é mais importante, os pequenos produtores rurais que fazem uso de métodos regenerativos como a agroecologia, por exemplo, são 20 vezes mais energeticamente eficientes do que o agronegócio e os grandes latifúndios. Enquanto o método mais eficiente do agronegócio tem que investir 1kcal para produzir 1.5kcal, um pequeno produtor rural investe 1kcal para produzir 30kcal de alimento por hectare. Outra informação importante é que enquanto produz grãos, tubérculos, frutas, castanhas, etc. o pequeno produtor rural ainda consegue fornecer proteína animal suficiente para alimentar 34 pessoas por ano por hectare (Altieri, 2015).

Tendo em vista a perda crescente das terras aráveis pelos métodos usados pelo agronegócio, a diminuição do petróleo disponível e a eficiência energética dos pequenos produtores rurais, fica evidente a necessidade de adotarmos métodos regenerativos para produzir e distribuir nossos alimentos. A Agroecologia, a Permacultura, a Agricultura Sintrópica e o Gerenciamento Holístico são exemplos de abordagens, princípios e métodos regenerativos que nos ajudam a produzir nossos alimentos em harmonia com a natureza e de maneira energeticamente muito mais eficiente.

Referências:

Altieri, M. A. (2015). Agroecology: Who will feed us in a planet in crisis. Paper presented at the Earth Talk. https://www.youtube.com/watch?v=LKfiabQ-j0E

Tittonell, P. (2014). Feeding the world with Agroecology Paper presented at the TEDx Ede https://www.youtube.com/watch?v=iKtrwdsvIko