Nesse podcast Eurico traz reflexões e referências importantes para pensarmos e estruturarmos com urgência uma economia alternativa para garantir segurança e abundância para quem vive no campo.
Usando pensadores e autores que vão desde a antropologia, passam pelos estudiosos do colapso e vão até a economia, Eurico argumenta que os empreendimentos e atividades rurais tem que ser lucrativos na economia vigente, mas também capazes de trazer resiliência, segurança e abundância para nossas famílias no caso do acirramento do colapso econômico e energético que já está se desenrolando.
O teste com o uso do Bitcoin Cash (BCH), Eurico avisa, não é por esperar que vá resolver tudo ou que seja uma alternativa completa para o sistema econômico fiduciário atual que está em colapso. O do BCH é mais no sentido de garantir o direito de privacidade em nossas transações, nossa capacidade de desobediência civil e de construir alternativas comerciais com uma moeda descentralizada.
Para participar dos testes e estudos do Eurico com o Bitcoin Cash (e criação de uma economia paralela), você pode doar qualquer quantia usando esse endereço:
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O texto, na íntegra e com as referências, segue abaixo.
“A crise financeira que enfrentamos hoje surge do fato de que quase não há mais capital social, cultural, natural e espiritual para converter em dinheiro. Séculos de criação de dinheiro quase contínua nos deixaram tão desamparados que não temos mais nada para vender. Nossas florestas estão danificadas além [da capacidade de] reparo, nosso solo esgotado e lixiviado para o mar, nossa pesca esgotada e a capacidade rejuvenescedora da terra de reciclar nossos resíduos, saturada. Nosso tesouro cultural de canções e histórias, de imagens e ícones, foi saqueado e protegido por direitos autorais. Qualquer frase inteligente que você possa imaginar já é um slogan de marca registrada. Nossos relacionamentos e habilidades verdadeiramente humanos foram tirados de nós e vendidos de volta, de modo que agora dependemos de estranhos e, portanto, de dinheiro, para coisas que poucos humanos pagaram até recentemente: comida, abrigo, roupas, entretenimento, cuidados infantis, cozinhar. A própria vida tornou-se um item de consumo”.
Charles Eisenstein em Economia Sagrada: Dinheiro, Dádiva e Sociedade na Era da Transição. (2011. pp.93, 94)
Para as pessoas que têm (ou querem ter) empreendimentos rurais de sucesso se viabilizando no sistema econômico vigente hoje, isso implica que precisam ter flexibilidade em suas funções e elasticidade em sua escala para continuar amparando viveres dignos e a saúde ecológica de seu território em uma economia com cada vez menos energia fóssil e poder aquisitivo disponíveis.
Essa demanda traz muitos desafios, mas talvez o primeiro deles seja conseguir nutrir os comportamentos e construir as estruturas paralelas que deverão estar funcionando no caso de um desmoronamento mais abrupto da macro economia já em colapso.
Durante todo o tempo em que tivemos que viver dentro das possibilidades do fluxo solar energético, a grande maioria de nossas vidas e relacionamentos foram mantidos pela economia da dádiva, alguns de nossos relacionamentos e necessidades foram mantidos pelo escambo e tributos e o dinheiro só era usado para transações com estranhos que não podíamos confiar. Os antropólogos descrevem a distribuição e característica desses relacionamentos como “A Pirâmide do Relacionamento Humano” (Graber, 2012). A análise de Eisenstein sobre de onde surge a atual crise financeira, assim como a descrição precisa dos males causados pela impressão da moeda fiduciária na citação acima também se baseia em seu entendimento histórico da Pirâmide do Relacionamento Humano (2011). Dmitry Orlov, conhecido pelas suas previsões do colapso estadunidense no livro “Os 5 Estágios do Colapso”, vem argumentando que a sociedade ocidental pós-moderna e sua economia baseada na moeda fiduciária, inverteu a Pirâmide dos nossos relacionamentos. Em um vértice minúsculo na base, temos a economia da dádiva, praticada quase que exclusivamente só pelos núcleos familiares. Imediatamente acima nós temos o escambo e o tributo, presentes em nossa sociedade na forma de impostos pagos ao Estado e dízimo às igrejas e congregações. No topo nós temos a base larga e invertida da pirâmide onde a grande maioria de nossas necessidades, serviços e produtos necessários são pagos exclusivamente com a moeda fiduciária.
Tal inversão e erosão dos nossos valores e esgarçamento do tecido social, na escala e velocidade atuais, só se tornaram possíveis quando encontramos um estoque de energia; primeiro o carvão mineral, depois o petróleo e o gás natural. Associado com a tecnologia e as máquinas, uma colher de petróleo contém a energia equivalente a um dia inteiro de trabalho humano braçal. Um barril de petróleo equivale a algo entre 4.5 to 11 anos de trabalho humano ou 6 mil pessoas realizando trabalho em um dia (Hagens, 2021). Ainda assim, porque os governos imprimem dinheiro à vontade, o preço de comercialização de um barril de petróleo gira em torno de $80 dólares. O uso da moeda fiduciária em uma era na qual temos acesso à energia barata está nos fazendo perder a noção da realidade.
Nós usamos o dinheiro como um símbolo de energia. Na física, a energia é definida como a capacidade de realizar trabalho. O dinheiro, então, é uma nota promissória sobre uma energia e recursos futuros e a dívida é uma promissória sobre um dinheiro futuro (Hagens, 2021). O PIB global da economia de crescimento em 2025 foi de $115 trilhões de dólares (Rao, in Visual Capitalist, 2025), mas a dívida global chegou a $338 trilhões de dólares (Global Debt Monitor, 2025). É óbvio para qualquer pessoa que venha acompanhando o retorno no investimento das corporações petroleiras em suas prospecções que nós já entramos em uma era de declínio energético. Em suma, nós não temos o estoque de energia necessário para transformar esses $338 trilhões de dólares em trabalho realizado e que os Estados, os bancos, as corporações e os bilionários não vão conseguir pagar suas dívidas.
Mas sabemos muito bem que os dispositivos de proteção para que as elites financeiras mantenham seu status quo já estão sendo implementados. As moedas digitais do banco central, no Brasil chamada Drex, são uma ferramenta central nesse plano de controle durante o colapso. É um dinheiro completamente programável! O governo terá controle total de todos os dados e de todas as transações, mas também o poder de colocar um prazo de expiração para o uso do recurso ou mesmo um limite geográfico para determinar onde podemos gastá-lo.
Esse declínio energético não é um problema, porque é impossível resolvê-lo. Lidamos no momento com um predicamento, uma situação ou circunstância que envolve escolhas difíceis. É impossível manter qualquer semelhança com a civilização atual com significativamente menos estoque de energia disponível. A maioria das pessoas também não está disposta a levar uma vida com orçamento energético baseado no fluxo solar. E enquanto a grande maioria segue buscando poder consumir mais, os Estados têm comprado quantidades recordes de ouro e prata e os bilionários estão investindo em terras. É verdade que o investimento em terras está diretamente ligado com acesso a recursos como água para os centros de dados das IAs e minérios para microchips, eletrônicos, baterias e painéis solares. Mas a terra tem uma função importante por si só durante o declínio energético e o colapso econômico que vivemos; ela constitui uma reserva de valor! Uma das 3 importantes funções do dinheiro.
No estudo da economia, o dinheiro é definido por suas funções: meio de troca, unidade de conta e reserva de valor. Como meio de troca, vemos os Estados alienando nosso direito à privacidade em nossas transações. Como unidade de conta, uma vez que entendemos que também é um símbolo para energia e que esse estoque está em declínio, percebemos uma enorme desconexão com a realidade biofísica. Por fim, se não tivermos energia suficiente para transformar as dívidas em trabalho realizado, o dinheiro que usamos não será capaz de reservar valor no futuro. Por isso os países e os super ricos tem investido em ouro, obras de arte, terras, imóveis, ações, fundos de investimento e criptomoedas, especialmente o Bitcoin.
Mas essas 3 funções não são o que dinheiro é! “O dinheiro é um acordo dentro de uma comunidade para usar algo padronizado como meio de troca” (Lietaer and Dunne, 2013). “Moedas complementares (que funcionam em paralelo com a moeda do banco central), moedas cooperativas (criadas para encorajar cooperação ao invés de competição) e moedas locais (criadas para funcionar dentro de uma comunidade)”, Lietaer e Dunne explicam, “podem se especializar de maneiras que a moeda convencional não pode” (2013, pp.60-61). Mas como “essas moedas alternativas não são ferramentas para poupar ou investir ou, em termos tecnicos, para serem uma reserva de valor… essa justaposição de funcionalidade [de serem meio de troca e reserva de valor] causa um conflito de empurra e puxa” (2013, p.67).
Pelas análises de Graeber (2012), Eisenstein (2011) e Orlov (2013), eu não vislumbro, como muitos libertários e anarco-capitalistas o fazem, que o retorno do sistema econômico para o padrão outro, vá resolver a inversão que o uso demasiado do dinheiro criou na pirâmide do relacionamento humano. Simplesmente porque o que causou essa inversão não foi o dinheiro, mas o acesso ao estoque de energia barata que ele representa e que está está declínio. Por isso também, não acredito que qualquer criptomoeda, pelo simples fato de ter um limite de quantidade existente pré-programado possa, contra os limites biofísicos de estoque de energia existente, possa manter um aumento exponencial em seu valor.
Ainda assim, tenho certeza que uma moeda descentralizada (sem a necessidade de um banco central), resistente à censura e bloqueios e que respeite o direito das pessoas à privacidade em suas transações é extremamente importante. Mesmo que consigamos trazer de volta a economia da dádiva para a base da pirâmide do relacionamento humano e que o comércio, em função do declínio energético, fique cada vez mais restringido.
Um bom exemplo do quão fundamental é a existência de uma moeda descentralizada e quem percebe a gravidade dessa necessidade pode ser encontrado em um depoimento do Yanis Varoufakis, ex-ministro da economia da Grécia durante a crise econômica de 2008, uma das maiores lideranças da esquerda na atualidade e autor do livro Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo (2024). Logo depois que o Bitcoin foi criado, em 2009, perguntaram ao Varoufakis, o que ele achava da criptomoeda, ao que ele respondeu que o Bitcoin era uma grande solução para um problema que ainda não existia. Pouco tempo depois, em 2011, a adoção do Bitcoin salvava o Julian Assange e a Wikileaks da censura e falência quando todos os países juntos se recusaram a deixá-los usar o sistema bancário.
Se quisermos construir vidas dignas e manter a capacidade de dissidência desse viver agrário enquanto tocamos empreendimentos e atividades que por vezes terão que ser clandestinas, então mesmo consigamos restabelecer a dádiva e o escambo como expressões da abundância que essa vida pode trazer, como Assange, teremos que usar uma moeda resistente à censura e bloqueios encomendados pelo status quo.
Se o viver e a produção rural ecológica não adotar as moedas descentralizadas, teremos abundância entre vizinhos, mas seremos alienados de bens e serviços essenciais que talvez não tenhamos no campo. Por outro lado, se todos aqueles que acreditam que vão ser livres porque resolveram usar uma criptomoeda com limite de quantidade existente pré-programado, não trabalharem para estabelecer relações dadivosas e simétricas com quem vive no campo, muito em breve eles terão bastante liberdade econômica e nenhum alimento nutritivo e sem veneno para se alimentarem.
Nota: Essas reflexões fazem parte do capítulo 07, Dinheiro, Dívida, Dádiva e Riqueza: pensando empreendimentos rurais economicamente adaptáveis e flexíveis, para o livro Meu Caderno (de ida para o) Campo.
Estou testando o uso do Bitcoin Cash não como panaceia ou alternativa completa para sistema econômico fiduciário atual, mas como uma forma de garantir o direito de privacidade nas minhas transações, a minha capacidade de desobediência civil e de construir alternativas comerciais com uma moeda descentralizada.
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Referências:
Bernard Lietaer e Jacqui Dunne (2013). Rethinking Money: how new currencies turn scarcity into prosperity. Ed. Berrett-Koehler Publishers. EUA.
Charles Eisenstein (2011). Sacred Economics: Money, Gift, and Society in the Age of Transition . Ed. North Atlantic Books.
David Graeber (2012). Debt: the first 5,000 years . Melville House.
Dmitri Orlov (2013). The 5 Stages of Collapse: survivors’ toolkit . New Society Publishers.
Global Debt Monitor. Global Debt Monitor: Seismic Shifts in Global Debt Markets – Demographics, Deglobalization, Decarbonization and Digitalization , accessed on November, 2025.
Nate Hagens e D.J. White (2021). Reality Blind: Integrating the Systems Science Underpinning Our Collective Futures . Published by the author.
Pallavi Rao on Visual Capitalist. The $115 Trillion World Economy in One Chart , accessed on November, 2025.